O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) formalizou nesta terça-feira (2/6) um pedido direto ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio: que o governo norte-americano não aplique tarifas ao Brasil no âmbito da investigação aberta pela Seção 301. Na mesma correspondência, ele celebrou a decisão dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas — afirmação que, segundo o parlamentar, foi recebida com entusiasmo pela maioria da população, ainda que "não tenha agradado ao nosso governo atual".
O tom da carta mistura apelo econômico e sinal político. Flávio admite que nenhuma sobretaxa foi imposta até o momento, mas alerta que medidas punitivas futuras poderiam agravar indicadores que vêm se deteriorando, como o aumento da dívida pública, a inadimplência e o número recorde de recuperações judiciais. Ao colocar o discurso no campo da defesa das empresas brasileiras, o senador busca antecipar um argumento eleitoral: tarifas seriam um golpe direto na economia doméstica e na percepção de parceiros históricos.
Há, porém, uma leitura institucional e diplomática a ser feita: ao elogiar a declaração americana sobre as facções e ao se oferecer para articular um acordo comercial caso vença as eleições de outubro, Flávio mistura prerrogativas de candidato com iniciativas que, tradicionalmente, competem ao governo em exercício. A oferta de colocar a equipe de transição “imediatamente à disposição” do governo dos EUA é legítima em termos de campanha, mas pode agravar a tensão entre Brasília e Washington, e entre o gabinete atual e um potencial sucessor — especialmente num momento em que a investigação da USTR, instaurada em julho de 2025, ainda corre.
O cenário traçado pelos analistas — citado no material-base — é de ampliação das janelas de pressão: além do risco direto de tarifas, a classificação das facções e a Seção 301 abrem espaço para medidas financeiras e políticas que demandam resposta coordenada do Estado brasileiro. Politicamente, a iniciativa de Flávio funciona em duas frentes: sinaliza afinidade com a agenda de segurança americana para sua base e tenta assumir a narrativa de defensor do setor produtivo diante do risco de represálias comerciais. Para o governo atual, a carta representa um desafio prático e simbólico: além de exigir respostas técnicas à USTR, amplia o debate público sobre quem estará em condição de negociar internacionalmente — e com que margem de manobra econômica e institucional.