O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentou nesta semana apagar um incêndio político e comercial ao enviar ao governo dos Estados Unidos uma defesa formal do Pix, o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro. No documento, protocolado no âmbito da investigação comercial aberta por Washington sobre suposta concorrência desleal, ele reafirma que o Pix é uma realização do governo Bolsonaro e uma infraestrutura pública soberana, comparável ao FedNow, do Federal Reserve. A iniciativa representa um recuo explícito diante da repercussão negativa gerada por críticas internas — sobretudo a sugestão do irmão Eduardo Bolsonaro sobre substituir o Pix por serviços como o Zelle — e busca, ao mesmo tempo, inocentar a plataforma de acusações que poderiam justificar sanções ou tarifas.
Ao mesmo tempo em que defende o caráter público e estratégico do Pix, Flávio propõe um 'sinal decisivo' para responder às preocupações americanas: a aprovação de uma lei que impeça a interconexão do sistema brasileiro com 'arranjos de liquidação transfronteiriça não ocidentais'. A formulação, sem citar países, atinge claramente iniciativas do Brics e, por extensão, plataformas com participação chinesa ou russa. Há nessa combinação uma contradição política: proclamar soberania do sistema ao mesmo tempo que se limita, por via legislativa, quais parceiros internacionais podem ser conectados. Isso levanta dúvidas sobre coerência estratégica e sobre o real alcance de uma proteção que dependeria de legislação e de implementação técnica complexa.
No documento enviado a Washington, o senador também defende uma agenda de desregulamentação para os meios de pagamento privados, argumentando que cartões, credenciadoras e outros instrumentos continuam a oferecer serviços que o Pix não substitui, como crédito e parcelamento. A proposta casa com um viés liberal: reduzir encargos e regras para estimular concorrência e inovação. Mas há também um componente geopolítico e econômico: favorecer o ambiente regulatório pode agradar provedores privados, muitos com origem ou forte presença americana, e assim ser parte de um esforço para reduzir tensões com os EUA. Resta o risco de que medidas de desregulamentação beneficiem players já estabelecidos e restrinjam a capacidade do Brasil de emergir como hub de soluções alternativas.
Politicamente, o movimento de Flávio busca dois objetivos conflitantes: acalmar a pressão externa e não assumir posição que pareça subserviente à agenda dos Estados Unidos perante sua base bolsonarista. No curto prazo, pode ajudar a reduzir a probabilidade de sanções econômicas; no médio prazo, expõe o pré-candidato a críticas por incoerência — entre a retórica de soberania e a proposta efetiva de limitar conexões com determinados parceiros. A proposta exige tramitação no Congresso, discutida em meio a interesses setoriais, riscos diplomáticos com países do Brics e pressões do mercado. Em suma, trata-se de um gesto com efeito político imediato, mas de implementação complexa e impacto ambíguo sobre inovação, concorrência e relações externas.