Em Brasília, depois de se reunir com dirigentes do Podemos — que declararam apoio à sua candidatura no segundo turno — o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que pretende usar o capital político de uma eventual vitória para articular no Congresso o fim da reeleição presidencial. Segundo o parlamentar, a mudança deveria valer já para o seu próprio mandato, e a definição sobre duração do período caberia ao Legislativo.
A proposta, além de provocar debate público, tromba com obstáculos institucionais claros: a alteração exige emenda constitucional, aprovada por maioria qualificada (três quintos) em dois turnos na Câmara e no Senado. Traduzido em política prática, isso significa negociar com bancadas diferentes, abrir mão de agenda ou oferecer contrapartidas a partidos e presidentes das casas. Não é apenas uma questão técnica — é um teste de capacidade de costura partidária num Congresso fragmentado.
Politicamente, a iniciativa tem dupla face. Por um lado, pode ressoar entre eleitores contrários à reeleição e reforçar a imagem de renovação da candidatura. Por outro, corre o risco de ser vista como medida personalista, já que a própria ideia de aplicar a regra ao mandato do proponente tende a alimentar críticas de autopromoção e susceptibilidade a ataques de adversários. A menção a discutir a duração do mandato desloca parte da negociação para o Parlamento, transformando uma bandeira eleitoral em moeda de troca legislativa.
Na prática, a proposta acende alerta sobre a viabilidade real do projeto: demanda maioria qualificada, calendário compatível com prioridades de outros atores e disposição a sacrificar agenda para garantir votos. Para o candidato, a oferta funciona como sinal político de confrontação com o status quo e tentativa de ampliar apoio, mas a leitura mais pragmática é que, sem uma base robusta e concessões relevantes, a ideia corre o risco de se transformar em promessa difícil de cumprir — gerando desgaste em vez de consolidar vantagem eleitoral.