À primeira vista, Flávio Bolsonaro reúne o capital político necessário para disputar o eleitorado conservador e disputar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, na prática, sua campanha tem oferecido ao adversário e à esquerda oportunidades para recuperar iniciativa política. Em vez de transformar os problemas econômicos e a elevada rejeição de Lula em vantagem, o filho do ex-presidente tem acumulado episódios que expõem uma deficiência estratégica: escolha de aliados problemáticos, conflitos internos e uma retórica que acentua rupturas institucionais em vez de atrais eleitores moderados.
A lista de equívocos é concreta. O envolvimento com personagens ligados a escândalos financeiros, a ruptura com figuras importantes do núcleo bolsonarista e a tentativa de atribuir ao governo federal responsabilidade por medidas externas — como a política tarifária dos EUA — não tiveram o efeito esperado. Em ambiente internacional, a oportunidade de projetar um programa econômico e apelar para a defesa de exportações e investimentos foi perdida quando o debate foi deslocado para acusações sobre as urnas eletrônicas. O Tribunal Superior Eleitoral reagiu oficialmente, reafirmando que nem a Smartmatic nem empresas estrangeiras são responsáveis pelo desenho e operação do sistema de votação brasileiro, enquanto articuladores políticos de centro resumiram o erro: naquela arena, dava para discutir comércio e indústria — e não se falou disso.
O custo político é direto. Ao priorizar narrativas que evocam 8 de janeiro de 2023 e ressuscitar suspeitas já desmentidas sobre o processo eleitoral, Flávio fortalece a percepção pública de risco institucional. Esse tipo de discurso mobiliza apenas o núcleo fiel, mas não amplia a base entre eleitores de centro e independentes que exigem garantias de estabilidade institucional e competência administrativa. Internamente, aliados pragmáticos e setores empresariais tendem a exigir sinais de responsabilidade — é exatamente aí que a candidatura tem falhado em transmitir segurança, confundindo agressividade retórica com capacidade de governar.
A consequência é clara: um adversário com potencial para explorar desgaste do governo abre mão dessa vantagem quando sua campanha vira foco de controvérsia. Se a candidatura do PL não promover uma correção rápida — apresentando agenda econômica crível, interlocução moderada com o mercado e uma comunicação que mostre capacidade de representar o Brasil sem litígios institucionais — Lula terá espaço para 'jogar parado' e concentrar-se em recuperar eleitores moderados e reforçar a narrativa de defesa da democracia. Para o campo conservador, a escolha é nítida: ou se muda a estratégia para competir além da base, ou se assume a profundidade do desgaste eleitoral que esses erros inevitavelmente produzem.