Acusado pelo governo Lula de ter incentivado uma resposta dos Estados Unidos que poderia resultar em um 'tarifaço' sobre produtos brasileiros, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou ter encaminhado uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, solicitando que Washington não aplique sobretaxas de 25% ao país. Na correspondência, segundo o senador, o argumento central é que medidas desse tipo agravariam problemas econômicos internos, citando aumento da dívida pública, crescimento da inadimplência e recorde de recuperações judiciais.

O gesto tem dupla leitura política. Por um lado, é uma tentativa explícita de se afastar da versão, sustentada pelo Planalto, de que sua atuação teria estimulado as ameaças comerciais. Por outro, reforça a interlocução direta com autoridades americanas num momento em que imagens de Flávio ao lado de Donald Trump na Casa Branca voltaram a circular e a reforçar laços entre parte do bolsonarismo e o governo republicano.

Na carta, o senador também saudou a decisão dos EUA de qualificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, um ponto celebrado por ele como proteção regional. Flávio disse ainda estar confiante numa vitória em outubro e ofereceu antecipadamente sua equipe de transição para negociar um acordo amplo de comércio e investimentos, sinalizando que pretende transformar a pauta econômica em trunfo de campanha.

A movimentação ocorre em clima de escalada retórica: nas redes e em entrevistas, o pré-candidato criticou o governo federal, rejeitou acusações sobre interferência no sistema de pagamentos e anunciou que apresentará ao STF uma notícia-crime contra o presidente Lula por declaração pública. O episódio amplia o contencioso entre Executivo e oposição, com reflexos sobre a agenda externa e o ambiente político doméstico, ao mesmo tempo em que deixa aberta a pergunta sobre os custos eleitorais e institucionais dessa aproximação com Washington.