Em reunião com influenciadores realizada em São Paulo, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro afirmou que pretende organizar seu eventual governo com base em consultas a especialistas de diferentes áreas e na atuação de redes digitais para difundir a mensagem da campanha. O encontro, promovido por Pablo Marçal, contou com a presença de aliados eleitos e palestras de colaboradores da campanha e empresários, em uma tentativa explícita de ampliar a audiência e conquistar eleitores indecisos na reta final.

O discurso articulou dois eixos: a promessa de ouvir técnicos e a crítica ao papel do Estado, colocada como obstáculo à liberdade dos cidadãos e à ação contra o crime. Essa combinação busca romper o enquadramento simplista direita versus esquerda e apresentar uma imagem de pragmatismo técnico. Ao mesmo tempo, o recurso a influenciadores e a retórica sobre devolver 'soberania' revela aposta em comunicação direta e mobilização por redes, estratégia que pode ampliar alcance, mas também reduzir o espaço para debates programáticos detalhados.

A dimensão política do discurso merece atenção. Em outras ocasiões, o candidato afirmou que usaria uma eventual maioria no Congresso para alterar a Constituição — sinal que acende alerta sobre pressão institucional e risco de conflitos com outras instituições, como o Judiciário. Propostas que toquem a Carta exigem desenho jurídico e político claro; sem isso, a fala tende a gerar incerteza entre parlamentares, investidores e eleitores de centro, que cobram concretude e previsibilidade.

Para além do efeito de palco, a eficácia da estratégia dependerá da capacidade de transformar consultas e promessas em políticas executáveis. Ouvir especialistas é formulação legítima, mas não substitui apresentar propostas claras e avaliar impactos fiscais, legais e institucionais. Na disputa em que a disputa por indecisos é decisiva, a campanha precisa mostrar como as intenções serão traduzidas em medidas; caso contrário, a tática de ampliar a base usando influenciadores corre o risco de soar vazia diante de exigências por detalhamento e responsabilidade.