A carta que o senador Flávio Bolsonaro endereçou a Donald Trump pedindo o adiamento de 180 dias das tarifas anunciadas pelos Estados Unidos é, do ponto de vista político, um tiro no próprio pé. Ao colocar o pedido em termos exclusivamente temporais — não exigindo a revogação nem contestando tecnicamente a medida — o senador desloca o debate do âmbito diplomático e técnico para o palanque eleitoral, fragilizando a estratégia conduzida formalmente pelo Itamaraty e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O gesto também alimenta a narrativa do governo de que setores da família Bolsonaro instrumentalizam fatores externos contra os interesses do país.

O contencioso, lembram técnicos e diplomatas, não é mero reflexo de disputa eleitoral. A investigação do USTR com base na Seção 301, concluída em junho, sintetiza uma lista de queixas que vão do comércio digital e decisões sobre plataformas às tarifas dentro de acordos regionais, passando por acesso ao mercado de etanol, propriedade intelectual, combate à corrupção e desmatamento. Em resposta, o Itamaraty produziu um documento de 29 páginas assinado pelo chanceler Mauro Vieira, que rebate ponto a ponto as acusações e afirma que muitas das questões apontadas por Washington tocam opções regulatórias e soberanas do Brasil. A negociação diplomática busca separar litígios comerciais de disputas internas e preservar canais técnicos de diálogo.

É exatamente nesse esforço institucional que a carta de Flávio causa dano: ao pedir apenas o adiamento das tarifas para depois da eleição, o senador não questiona a legitimidade da medida, mas sugere que sua aplicação seria aceitável em termos comerciais, desde que ocorra em um momento favorável ao seu lado político. O efeito prático é duplo. Primeiro, enfraquece a posição brasileira nas conversas com a Casa Branca, porque transmite a impressão de que a sanção tem fundamento negociável em troca de calendário político. Segundo, entrega à campanha do governo a bandeira da defesa da soberania — um tema sensível que, na prática, reforçou a recuperação de Lula nas últimas pesquisas, ao contrapor interesses nacionais a interferências externas.

Politicamente, a iniciativa amplia desgaste para quem reivindica a defesa dos interesses nacionais sem coordenação com os órgãos técnicos. Diplomatas e parte do setor privado podem ver reduzida a margem de manobra e maior contaminação eleitoral das conversas sobre comércio exterior. Há, portanto, custo real: perde-se coesão, ganha-se polarização. Se o objetivo for neutralizar o impacto econômico das tarifas, a saída mais crível é reforçar a defesa técnica do Brasil e buscar, internamente, uma frente ampla que reafirme a rejeição à medida, em vez de negociar janelas eleitorais. A tarefa agora é reparar os canais com o Itamaraty e o MDIC, sob risco de ver a disputa comercial escalar e transformar tema técnico em munição permanente na campanha de 2026.