O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta quarta-feira (21/10) que aceitará o desafio público do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para abrir os sigilos telefônico, bancário e fiscal — mas impôs uma condição: só exporia seus dados se também fossem divulgadas as informações telefônicas de Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete do petista. A resposta transforma uma proposta de transparência em munição política na reta final do segundo turno.
A oferta original de Lula, feita durante debate, visava submeter à mesma verificação candidatos e familiares, na tentativa de colocar sob escrutínio a evolução patrimonial e movimentações financeiras dos adversários a poucos dias da votação marcada para domingo (25/10). Flávio disse estar disposto a aceitar a proposta, mas buscou emparelhar o alvo do exame e deslocar o foco para aliados do presidente, numa estratégia que mistura aceitação formal e condicionamento prático.
O senador reiterou que seus bens foram declarados à Justiça Eleitoral e à Receita Federal, sustentando que seu patrimônio é público e conhecido dos órgãos de fiscalização. Ao mesmo tempo, Flávio segue sob investigação da Polícia Federal em dois inquéritos citados publicamente: um sobre um pedido de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme intitulado Dark Horse, e outro que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo o advogado Willer Tomaz e movimentações em plataformas de apostas.
A postura do parlamentar tem efeitos políticos imediatos. Ao condicionar a própria exposição à abertura de dados de um auxiliar de Lula, Flávio procura transformar um gesto de transparência em uma disputa simétrica — e assim tensionar a narrativa do adversário. A manobra pode favorecer sua base ao projetar a imagem de que o debate deveria ser amplo, mas também expõe o senador à crítica de usar o pedido como tática de defesa em vez de resposta direta às investigações em curso.
No plano eleitoral, o episódio acende alerta para a escalada de trocas de acusações nos dias finais da campanha: a proposta de abertura de sigilos, que se pretendia técnica, virou instrumento de disputa política. Resta saber como as forças políticas e as instituições vão reagir a essa tentativa de condicionar transparência e se o eleitor verá no gesto sinal de equilíbrio entre candidatos ou mais um elemento que complica a narrativa oficial e amplia o desgaste dos envolvidos.