O debate promovido pela TV Globo transformou-se em palco de confrontos diretos sobre economia entre os dois candidatos que vão ao segundo turno: o ex-presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. A troca de farpas tocou em temas centrais para eleitores: endividamento das famílias, perda do poder de compra e incertezas em torno da reforma tributária. A disputa, realizada a poucos dias da votação decisiva, teve momentos em que a pauta social e a técnica econômica se misturaram ao ataque político.

Flávio hipotecou a argumentação ao cotidiano do eleitor: citou redução de quantidades em produtos e a sensação de que o orçamento doméstico rende menos, atribuindo isso à política fiscal e aos gastos do governo. Cobrou do presidente a falta de definição da alíquota do IVA, o novo tributo que integra a reforma, e disse que a incerteza sobre o percentual (há menções públicas a algo em torno de 28%) torna o debate urgente. Também afirmou que a carga tributária alcançou níveis recordes e que isso teria obrigado o Executivo a ‘tirar do bolso’ do contribuinte para bancar despesas correntes.

Do outro lado, Lula defendeu o histórico recente de reajustes do salário mínimo acima da inflação, argumentando que sem o governo petista o piso estaria muito mais baixo. A réplica fez a ponte com políticas de renda adotadas no passado, enquanto Flávio insistiu na necessidade de recuperação do poder de compra e prometeu elevar o mínimo real caso eleito. A divergência sobre prioridades — manutenção de programas e reajustes versus ajuste fiscal e contenção de gastos — foi explícita e marcou o tom da discussão.

Politicamente, o embate acende alerta sobre o tema que mais incomoda o eleitor: o custo de vida. A ênfase na incerteza do IVA e nas queixas sobre preços cria um roteiro de campanha para a oposição que pode ampliar desgaste do governo no curto prazo e complicar a narrativa oficial. Resta saber se o foco em medidas que atingem diretamente o orçamento doméstico será decisivo nas urnas: trata-se de um retrato do debate, não de uma previsão, mas expõe o terreno em que a eleição será decidida neste domingo.