Em visita a Washington, Flávio e Eduardo Bolsonaro afirmaram nas redes sociais que a ausência de representantes oficiais do governo federal na audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) revela desinteresse do Palácio do Planalto diante do risco de sobretaxas. Os dois participaram das sessões que encerraram a fase de manifestações públicas da investigação americana, considerada decisiva antes de uma decisão prevista para 15 de julho, e disseram permanecer mais um dia nos EUA para articular com autoridades locais.
A posição oficial brasileira, no entanto, foi diferente: Brasília optou por não se inscrever para falar nas audiências e enviou representantes da Embaixada em Washington para acompanhar as sessões. O governo avalia que as audiências têm caráter consultivo e que as negociações efetivas ocorrem em canais técnicos e em reuniões de alto nível que vinham sendo mantidas entre os dois países. Do lado americano, o USTR recomendou a aplicação inicial de sobretaxas de 25%, com outra proposta adicional de 12,5% em análise, o que poderia elevar a carga a até 37,5%, citando preocupações que vão do sistema de pagamentos Pix a políticas de etanol, desmatamento, corrupção e pirataria.
A crítica dos Bolsonaros ganha tom político e expõe uma janela de fragilidade para o governo: ao transformar a ausência do Executivo em peça de acusação, a oposição tenta associar o Executivo a omissão diante de risco concreto para exportadores e cadeias produtivas. Mesmo que Brasília aposte no diálogo técnico, a percepção de desatenção em Washington pode se traduzir rapidamente em custo político doméstico e em reação de setores econômicos que dependem da estabilidade do acesso ao mercado americano. A ação dos irmãos também funciona como pressão direta sobre interlocutores americanos, buscando influenciar o desfecho por meio de lobby paralelo.
Com prazo curto até a definição das medidas, o desafio para o governo é equilibrar a estratégia diplomática — que privilegia negociações técnicas — com a necessidade de visibilidade política e de respostas claras aos exportadores. Caso as sobretaxas avancem, o impacto econômico será imediato para setores citados pela investigação e trará custo político adicional ao Executivo. Em cenário de pré-campanha para 2026, o episódio tende a alimentar narrativas de desgastes e de confronto entre abordagens técnicas e exposição política externa, exigindo reação coordenada se o objetivo for mitigar prejuízos e recuperar terreno perante os interesses econômicos afetados.