Durante evento do PL em que confirmou o deputado Alfredo Gaspar como vice, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que teve duas filhas com a expectativa de que elas o cuidem na velhice. A declaração, feita enquanto tratava do papel das mulheres, voltou a colocar em evidência um tom pessoal e paternalista da campanha e provocou reação imediata entre setores sensíveis ao tema do gênero.

No mesmo discurso, Flávio mencionou a chamada economia do cuidado e a invisibilidade do trabalho doméstico feminino, citando que esse tipo de atividade representaria 8,5% do PIB — um argumento usado para reconhecer que cuidados familiares não são compensados financeiramente. O contraste entre esse reconhecimento público e a fala sobre ter tido filhas para cuidar dele expôs uma contradição narrativa e um despreparo retórico diante de um assunto sensível.

A declaração aparece em um momento já delicado para o candidato junto ao eleitorado feminino. Pesquisas recentes do Datafolha, divulgadas no fim de julho, apontam que metade das mulheres afirmam não votar nele de jeito nenhum no primeiro turno, percentual maior que o observado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esse tipo de episódio tende a reforçar rejeição e a dificultar esforços de aproximação com eleitoras de centro e de áreas urbanas.

Politicamente, a fala tem efeito prático: complica a missão de reduzir a resistência feminina sem uma mudança clara de tom e de propostas que trate da proteção social e do reconhecimento do trabalho de cuidado. Além disso, fragiliza tentativas de capitalizar apoio com a indicação de um vice — mesmo após apresentar Alfredo Gaspar — e pode gerar custo político em negociações com aliados que buscam imagem mais moderada e sensível às pautas de gênero.

No plano da campanha, o episódio reforça a necessidade de controle de danos e de mensagens coordenadas. Mais que um deslize de linguajar, a afirmação sinaliza fragilidade na adaptação do discurso a temas que combinam sensibilidade social e impacto eleitoral concreto. Para o eleitorado feminino, que já demonstra resistência, declarações desse tipo não apenas reforçam preconceitos como também funcionam como indicador de prioridade política e empatia, fatores centrais em uma corrida que dependerá da ampliação de base e da capacidade de reduzir rejeição.