Em Brasília, no que deve ser interpretado como tentativa de colocar a segurança das urnas no centro da campanha, o pré-candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro, pediu a embaixadores que os seus países ‘‘mandem a maior quantidade possível de observadores’’ para as eleições de outubro. O pedido foi feito em encontro que reuniu representantes de dezenas de missões diplomáticas e blocos multilaterais, em um gesto explícito de internacionalização de uma pauta que já provoca polarização interna.

No evento, Flávio trouxe à tona um documento da CIA sobre supostas fraudes em eleições venezuelanas de 2010 e sinalizou sem provas diretas relação entre equipamentos usados naquele país e máquinas que, segundo ele, estariam em uso no Brasil. A afirmação esbarra em posição formal da Justiça Eleitoral: em 2020 o TSE esclareceu que mensagens que ligavam Smartmatic a urnas brasileiras eram falsas e ressaltou que o projeto e a gestão do sistema são de responsabilidade da Corte. Ao juntar argumento técnico, menção a um relatório estrangeiro e um pedido a diplomatas, a movimentação busca plantar dúvidas que podem repercutir mesmo diante de negativas oficiais.

A estratégia tem custo político e institucional. Ao transformar embaixadas em público de sua narrativa, Flávio reforça a tática de mobilizar atores externos para amortecer questionamentos domésticos — um recurso usado anteriormente pelo entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje inelegível por decisão do TSE em 2023 e em prisão domiciliar. Internacionalizar o debate pode ampliar a audiência da acusação de falta de transparência, mas também expõe a campanha a críticas por politizar relações diplomáticas e a contradições frente às evidências e às respostas técnicas da Justiça Eleitoral.

No plano partidário, a movimentação ocorre às vésperas da convenção nacional do PL, que deve confirmar Flávio como candidato neste fim de semana. A indefinição sobre a vaga de vice persiste como desafio prático: o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, diz que a palavra final caberá a Jair Bolsonaro, enquanto o partido busca uma mulher para reduzir rejeição entre eleitoras. A recusa da senadora Tereza Cristina para compor a chapa — segundo interlocutores, ela prefere mirar uma vaga de liderança no Congresso — deixa o PL em busca de alternativas capazes de ampliar alianças e conter desgaste. A combinação de internacionalização da desconfiança e incerteza na formação da chapa desenha um período de maior exposição e pressão política para a candidatura.