O embarque do senador Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, na terça-feira 27/10, veio após a derrota eleitoral e foi noticiado com detalhes sobre sua saída pela fronteira com Puerto Iguazú, na Argentina, acompanhado da mulher e de duas filhas. A Polícia Federal não confirmou oficialmente o deslocamento, e o episódio se deu dias depois de o ministro Alexandre de Moraes ter determinado a entrega dos passaportes do parlamentar e proibido sua saída do país — ordem que, segundo registros públicos, não foi cumprida.

Flávio, porém, não é caso isolado. A lista de quadros ligados ao bolsonarismo que se mudaram para o exterior reúne perfis variados. Eduardo Bolsonaro deixou o Brasil em 2025 após ter o mandato cassado e ser condenado por atuação destinada a articular sanções contra o país e tentar interferir no julgamento do ex-presidente. O ex-diretor da PRF Silvinei Vasques foi condenado pelo STF em 16 de dezembro por conjunto de crimes que inclui tentativa de abolição do Estado democrático e organização criminosa, em decisão que o responsabilizou por operações destinadas a travar a votação de eleitores em 2022.

Outras saídas citadas no material-base incluem o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, que seguiu para os Estados Unidos em setembro após sentença do STF que lhe impôs 16 anos de prisão; o diretor-geral da PF informou que Ramagem cruzou a fronteira com a Guiana de forma clandestina e teria usado passaporte diplomático em sua entrada nos EUA. A ex-deputada Carla Zambelli mudou-se para a Itália em junho do ano anterior; em maio de 2025 o STF a condenou a 10 anos de prisão e ela perdeu o mandato. O blogueiro Allan dos Santos deixou o país em julho de 2020 e, em julho de 2022, foi sentenciado a regime aberto por crimes contra a honra; ele também era alvo de inquéritos no STF. O material-base ainda menciona um influenciador identificado como Figueiredo, que mora no exterior desde 2019, chegou a ser preso temporariamente em Miami durante a Operação Circus Maximus e tornou-se foco de investigações do Supremo a partir de 2023.

O padrão que emerge — saídas atribuídas a condenações, decisões judiciais ou pressão de inquéritos — tem efeitos políticos concretos. Além de dificultar a execução de penas e a cooperação jurídica internacional, a evasão de lideranças fragiliza a capacidade de articulação do grupo, alimenta narrativas de impunidade e complica a retomada eleitoral e organizacional do bolsonarismo. A utilização de rotas clandestinas ou de passaportes diplomáticos, quando confirmada, tende a elevar o custo institucional e exigir maior coordenação entre autoridades brasileiras e países receptores.

Para o sistema de Justiça, o desafio é duplo: garantir que medidas cautelares e penas sejam efetivas mesmo diante de saídas para o exterior e preservar o princípio da igualdade perante a lei. Politicamente, as partidas deixam um vácuo de comando e abrem espaço para reações internas no bolsonarismo — entre radicalização, dispersão e tentativas de reconstrução — enquanto impõem ao Judiciário e às forças de segurança a necessidade de respostas firmes e transparentes. Muitos dos casos mencionados ainda dependem de confirmação formal de autoridades ou de trâmites internacionais; a responsabilização, na prática, seguirá sendo teste de robustez institucional.