Um dia após afirmar em evento político que usaria a maioria parlamentar para “mudar a Constituição”, o candidato do PL Flávio Bolsonaro recuou e disse que respeitará o texto constitucional. Na tentativa de conter a repercussão negativa, ele detalhou que as alterações imaginadas seriam pontuais e tramitariam como PECs — entre elas uma reforma do Judiciário, a redução da maioridade penal, ajustes em pontos da reforma tributária e o fim da reeleição.

A fala original, em Goiânia, durante encontro com apoiadores e com o aval do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), enfatizou a expectativa de um Congresso mais alinhado ao candidato. A afirmação de que a nova composição parlamentar permitiria “redemocratizar o país” tomou as redes e recebeu críticas de opositores, que interpretaram o discurso como risco de projetos com potencial de restringir direitos ou concentrar poder.

No esclarecimento posterior, Flávio procurou limitar o alcance das propostas: afirmou que se trataria de propostas por emenda constitucional, submetidas ao processo legislativo, e que caberia ao Congresso definir detalhes como prazos e abrangência. Ele também disse pretender usar o “capital político de um presidente recém-eleito” para pautar o fim da reeleição, e orientou aliados a intensificar a atividade digital para moldar a narrativa da campanha.

O recuo público acende alerta político para a candidatura. Além de expor fragilidade na calibragem do discurso, a defesa de mudanças constitucionais mobiliza debates sobre segurança jurídica e legitimidade institucional — temas sensíveis para eleitores moderados e para parte do próprio centrão. No Congresso, propostas por PEC dependem de amplas costuras e podem transformar a agenda do candidato em moeda de troca, obrigando concessões e negociação intensa com bancadas diversas.

Sob o ponto de vista eleitoral, a tentativa de reduzir danos mostra que a campanha terá de gerenciar a tensão entre posturas mais duras que mobilizam a base e a necessidade de não afastar eleitores preocupados com estabilidade institucional. A vinculação do desempenho do PL ao legado de Jair Bolsonaro — que, conforme o próprio material-base, cumpre prisão domiciliar por atos relacionados à tentativa de golpe e outros crimes — também complica a narrativa, tornando previsíveis novas cobranças por clarificações nas próximas aparições públicas.