A ida de Flávio Bolsonaro às audiências públicas do USTR foi calculada como uma operação de contenção de danos: apresentar-se como defensor dos exportadores brasileiros e dissociar o bolsonarismo da escalada tarifária promovida nos EUA. No entanto, o gesto corre o risco de produzir o efeito inverso. Ao transformar a audiência em palanque político, o candidato expõe uma contradição central da sua estratégia — buscar trânsito em Washington enquanto carrega o passivo das ligações da família com a retórica e a pressão do governo Trump.
O problema para Flávio é que o rastro histórico existe. Declarações e posicionamentos de pessoas próximas ao clã — como Eduardo Bolsonaro, radicado nos EUA, e o seu aliado Paulo Figueiredo — já foram associados à linha de pressão que antecedeu o combate comercial. Essas referências vêm sendo reexumadas pelo Planalto e usadas para costurar uma narrativa: não se trata apenas de uma disputa técnica entre governos, mas de um ambiente político que teria favorecido medidas punitivas contra setores estratégicos do agronegócio e da indústria brasileira.
A estratégia política adotada por Flávio — defender, na prática, que a entrada em vigor das tarifas seja adiada até depois das eleições brasileiras — deslocou o debate do terreno econômico para o eleitoral. Em vez de centrar a discussão nos impactos sobre empresas, empregos e exportações, a questão passou a ser tratada como um instrumento de cálculo eleitoral. Essa escolha, além de fornecer argumento para o governo Lula questionar a prioridade nacional do candidato, abre uma brecha para acusá‑lo de oportunismo e de privilegiar calendário eleitoral sobre interesse produtivo.
O Itamaraty, por ora, optou por não participar formalmente das audiências e manter interlocução técnica com os EUA, limitando a presença a observadores. Essa postura sinaliza duas coisas: por um lado, o governo federal preserva canais diplomáticos para negociação técnica; por outro, o Planalto trabalha politicamente para colar ao clã Bolsonaro a responsabilidade política pelo tarifaço, independentemente da decisão final tomada por Washington. O ministro do Desenvolvimento deixou clara a percepção oficial de que a iniciativa de Flávio pouco contribui para a defesa efetiva dos interesses nacionais.
O efeito prático dessa operação é duplo. Para Lula, a crise se transforma em oportunidade política: reposicionar o debate e responsabilizar adversários por uma agressão econômica percebida como externa, mas alimentada por interlocuções internas. Para Flávio, a manobra aumenta a exposição e pode aprofundar desgaste entre eleitores conservadores sensíveis à defesa do comércio e entre empresários diretamente afetados. Resta ver se a tentativa de virar o jogo se consolidará como estratégia de interlocução ou aprofundará uma narrativa que já acende alerta para a campanha de 2026.