A Polícia Federal informou que o senador Flávio Bolsonaro entrou em Miami nesta quarta-feira (28/10) com um passaporte emitido pelo Brasil, documento que, segundo decisão judicial, já havia sido cancelado. Registros do sistema de histórico de viagens da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) apontam a chegada do parlamentar ao país nord-americano com identificação brasileira, depois de ter cruzado a fronteira pela Argentina usando o passaporte italiano.

O episódio ocorre depois que a PF solicitou ao Supremo Tribunal Federal, no domingo (25/10), a adoção de medidas cautelares contra o senador, entre elas a apreensão de passaportes e a proibição de deixar o país. Em cumprimento à decisão judicial, os passaportes brasileiros — o comum e o diplomático — foram cancelados, e o senador foi intimado na manhã de 26 de outubro a entregar eventuais documentos de outras nacionalidades em 24 horas. A PF afirma que essa intimação não foi atendida; Flávio deixou o Brasil na terça-feira (27/10).

A sequência de viagens — entrada na Argentina com passaporte italiano, embarque em voo com escala no Equador e chegada aos EUA com documento brasileiro — e o registro do CBP levantam uma pergunta prática e institucional: como um passaporte cujo cancelamento foi determinado pela Justiça brasileira foi aceito no controle migratório norte-americano? O caso expõe brechas na coordenação entre autoridades nacionais e estrangeiras e exige explicações sobre os procedimentos adotados pelas fronteiras envolvidas.

A Polícia Federal informou ainda que está consultando autoridades argentinas para apurar a possível travessia pela fronteira e que o voo transportava quatro passageiros, dois pilotos e uma comissária. A própria distinção entre os documentos — cancelamento dos passaportes emitidos pelo Brasil e ausência de informação sobre qualquer medida em relação ao passaporte italiano — agrava a complexidade do caso. Do ponto de vista jurídico, o não cumprimento de intimação e a circulação internacional após medida cautelar podem ensejar novos desdobramentos processuais.

No plano político, a situação tende a aumentar a pressão sobre o senador e sobre eventuais apoiadores que insistam em narrativas de normalidade. O episódio também exige posicionamento claro das autoridades brasileiras e esclarecimentos das agências estrangeiras envolvidas — além de uma resposta sobre eventuais falhas operacionais que permitiram a entrada nos EUA com documento cancelado. O presidente dos EUA, segundo relatos, afirmou que deu autorização para que Flávio viajasse, comentário que adiciona dimensão diplomática à disputa e reforça a necessidade de transparência.