Lisboa volta a ser, nesta semana, o epicentro de um encontro que mistura magistratura, academia, empresários e representantes políticos. A XIV edição do Fórum de Lisboa — apelidada nas mesas e redes como "Gilmarpalooza" em referência ao anfitrião, o ministro Gilmar Mendes — começa com a ambição de mapear a "Nova Ordem Internacional: Tecnologia e Soberania". O número impressiona: mais de 470 palestrantes, cerca de 70 painéis e delegações de países diversos, segundo a programação pública. A dimensão internacional e a ampla participação brasileira transformam o evento em vitrine de ideias, conexões e influência.

A abertura no auditório da reitoria terá Gilmar Mendes ao lado de figuras como o presidente da Câmara, Hugo Motta, o vice-presidente do STJ, Luis Felipe Salomão, e representantes acadêmicos e da OAB. Esse cruzamento explícito entre Judiciário, Legislativo, universidades e setor privado é o ponto que merece atenção: além de legitimar debates relevantes — sobre globalização, polarização e o papel das grandes plataformas digitais —, a aproximação entre magistrados e atores políticos ou financeiros suscita questões de percepção pública sobre independência institucional. A presença de André Esteves como moderador em painéis de destaque, pautada na programação, ilustra como o fórum tende a colocar bancos e mercados no centro das conversas sobre regulação e soberania.

O calendário do primeiro dia também traz momentos com potencial para polêmica: o ministro Alexandre de Moraes integra painel sobre democracia, populismo e polarização, e terá ao lado o corregedor nacional de Justiça e juristas internacionais. A ausência do ministro Flávio Dino, que cancelou por motivo de saúde após queda e fratura no pé, foi suprida com a participação do ex-presidente do STF Luís Roberto Barroso. Entre os convidados internacionais estão o colunista Thomas Friedman e o economista Joel Mokyr, autor premiado e referência em inovação — nomes que elevam o nível técnico do debate, mas também atraem atenção para as soluções propostas por elites acadêmicas e financeiras em temas sensíveis como inteligência artificial e governança digital.

Do ponto de vista político, o encontro funciona como um termômetro: sinaliza alinhamentos intelectuais e trajetórias de influência que podem reverberar na agenda regulatória e nas discussões pré-eleitorais. Sem evidências de irregularidade, a reunião acende alerta sobre a necessidade de clareza de fronteiras entre atuação jurisdicional e articulações políticas ou econômicas. Para além das palestras de alto nível, o Fórum expõe um desafio prático para atores públicos — manter a imparcialidade percebida e adotar transparência sobre interlocuções que podem impactar decisões com efeito direto na vida dos cidadãos.