A articulação em torno de Frei Gilson elevou o frade ao centro de um jogo político que vai além do palco religioso. Nos últimos dias, a divulgação de iniciativas para aproximá-lo do senador Flávio Bolsonaro (PL) reacendeu embates nas redes e transformou uma liderança religiosa em alvo de disputa pelo voto católico — segmento que, segundo aliados do PL, segue menos alinhado ao bolsonarismo do que o eleitorado evangélico e, portanto, estratégico para 2026.
Frei Gilson conquistou visibilidade nacional com o ‘Rosário da Madrugada’, transmissões que atraíram milhões de fiéis e audiência em dezenas de países. Essa capilaridade digital e a identificação com pautas conservadoras o tornaram referência entre jovens e adultos fora dos canais institucionais da Igreja. Para o entorno do senador, a projeção do frade é uma oportunidade de ampliar penetração em um eleitorado que pesquisas recentes indicam inclinar-se, em parte, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva — cenário que motiva uma leitura defensiva no PL.
Na estratégia em discussão dentro do partido, a aproximação pública com lideranças religiosas viria acompanhada de movimentos táticos: a escolha de uma vice com perfil católico e a organização de um grande ato reunindo figuras do meio religioso e influenciadores do segmento. Entre os nomes ventilados está a deputada Simone Marquetto (PP-SP), próxima a Frei Gilson e atuante em pautas católicas. Integrantes da campanha veem nessa costura uma via para reduzir a vantagem do adversário entre católicos, mas reconhecem risco de repercussão negativa.
A ofensiva também trouxe reação imediata da esquerda e de críticos nas redes, que acusam tentativa de instrumentalização da fé para fins eleitorais. A disputa expõe uma contradição política: a busca por maior capilaridade religiosa pode ampliar a base, mas também cria espaço para desgaste e questionamentos sobre o papel de líderes religiosos na política. Para o PL, a operação é uma aposta calculada — precisa navegar entre mobilizar apoiadores e evitar alimentar uma narrativa de exploração eleitoral da fé, que pode custar em imagem e votos num segmento sensível.