A Frente Parlamentar Mista Ambientalista (FPMA) divulgou nota nesta quinta-feira (14/5) expressando “preocupação formal” com o convite feito pela Câmara dos Deputados ao cientista político dinamarquês Björn Lomborg para palestrar no Auditório Nereu Ramos. O evento, organizado pelo Centro de Estudos e Debates Estratégicos (CEDES) em parceria com a Consultoria Legislativa, integrou uma série dedicada a “Debates Estratégicos” e tratou da priorização de políticas públicas por meio de análise de custo-benefício.
Na apresentação, Lomborg questionou a eficácia de investimentos maciços em políticas climáticas, afirmando que metas de emissões zero até 2050 poderiam custar cerca de US$ 27 trilhões por ano para gerar um benefício estimado em US$ 4,5 trilhões — uma metáfora que, segundo ele, equivaleria a “gastar R$ 7 para fazer R$ 1 de benefício”. A FPMA não nega o direito ao contraditório, mas critica a concessão de legitimidade institucional a posições que, em sua avaliação, contrariam o consenso científico sem a realização de um contraditório técnico qualificado.
A crítica da bancada ressalta ainda que a obra de Lomborg se diferencia do negacionismo clássico por operar dentro do vocabulário científico — aceitando projeções de temperatura do IPCC — e por usar essa adesão formal para conferir respaldo econômico a conclusões que desestimulam medidas de mitigação. Essa estratégia, apontam os deputados, torna a contestação mais complexa: falhas metodológicas identificadas por revistas como Scientific American e Nature e por institutos como o Grantham Institute foram levantadas como referência para questionar a robustez dos números apresentados.
Politicamente, o episódio acende alerta sobre o uso do espaço público para legitimar debates que mexem com a política ambiental e com a agenda econômica. Ao privilegiar um orador cujo trabalho tem histórico de contestações acadêmicas, a Câmara expõe-se a críticas sobre critérios de seleção e risco de erosão da sua credibilidade técnica. A ausência de manifestação do CEDES e da própria Câmara até o fechamento amplia a percepção de omissão e alimenta demanda por esclarecimentos e por um contraditório qualificado nos fóruns legislativos.
Do ponto de vista institucional, a controvérsia complica a narrativa oficial sobre eficiência e priorização de recursos: reforça a necessidade de integrar evidência científica consolidada ao debate sobre custos e benefícios e de evitar simplificações que possam ser usadas para postergar decisões. Se não manejada com transparência, a polêmica tende a ampliar desgaste sobre a Câmara e sobre quem patrocina o evento, enquanto acirra a disputa política em torno das soluções climáticas.