Relatório da Elos Ayta Consultoria mostra que maio marcou a maior retirada líquida de recursos de investidores estrangeiros na B3 desde agosto de 2023: R$ 14,91 bilhões sacados apenas no mercado secundário, sem considerar aportes em IPOs e follow-ons. Se essas ofertas forem incluídas, o fluxo negativo do mês fica em R$ 13,27 bilhões, patamar recorde na série desde 2022. O impacto foi imediato no pregão: o Ibovespa caiu 7,22% no mês, encerrando em 173.787 pontos, após ter alcançado mais de 199 mil pontos na segunda quinzena de abril.

A consultoria atribui o movimento a uma combinação de fatores externos e domésticos. Externamente, parte do capital migrou para mercados desenvolvidos diante da manutenção de juros elevados nos Estados Unidos; internamente, houve aumento da cautela sobre o desenho fiscal do país. Apesar da saída em maio, o saldo acumulado do ano ainda aparece positivo: R$ 41,63 bilhões desde janeiro, excluindo IPOs e follow-ons (R$ 43,78 bilhões com essas operações). Para o CEO da Elos Ayta, Einar Rivero, o resultado anual até aqui indica que investidores internacionais seguem responsáveis por sustentar liquidez e ganhos observados ao longo de 2026.

O episódio tem implicações políticas e econômicas claras. A retirada de capital evidencia que sinais fiscais desfavoráveis ou ambiguidade nas contas públicas reduzem a tolerância de estrangeiros a ativos de risco locais. Para o governo, o dado corrói parte da narrativa de convergência duradoura e aumenta a necessidade de demonstrações concretas de responsabilidade fiscal. No plano do mercado, a volatilidade e a menor profundidade podem pressionar custo de capital e condicionarem decisões de empresas e investidores domésticos.

O que ficará em foco nas próximas semanas é a reação das autoridades fiscais e a evolução do cenário externo. Se o governo não apresentar medidas que restauram confiança, a rotação de carteiras para mercados com juros reais mais atraentes tende a continuar, ampliando o grau de desafio para a recuperação sustentada da bolsa. Monitorar próximos relatórios de fluxo e a resposta de políticas será determinante para avaliar se maio foi uma pausa temporária ou o início de tendência mais duradoura.