O ministro do STF Gilmar Mendes voltou a sinalizar preocupação com os efeitos da inteligência artificial sobre o processo eleitoral. Em publicação recente, ele relacionou as ferramentas de IA à capacidade de produzir vídeos, áudios e peças de propaganda enganosa que podem confundir eleitores e desequilibrar disputas. Mendes citou experimentos jornalísticos que demonstraram a facilidade com que conteúdos falsos podem passar por filtros de plataformas, além de apontar documentos de inteligência que atribuem risco de tentativas de interferência externa em ativos estratégicos do país.

Além das ameaças tecnológicas e de agentes externos, o ministro destacou outro risco considerado mais sério: a politização da própria Justiça Eleitoral. Na avaliação dele, integrantes que busquem envolver o Tribunal em atividade de natureza partidária deveriam avaliar se têm condição de permanecer na função; partidos e o Ministério Público Eleitoral, por sua vez, foram convocados a fiscalizar possíveis casos de suspeição. Essa ênfase revela um receio institucional explícito: a perda de neutralidade de membros da Corte pode corroer a legitimidade do árbitro das eleições justamente quando ferramentas capazes de manipular a opinião pública se tornam mais sofisticadas.

O diagnóstico abre um dilema prático. Por um lado, o TSE e as instâncias eleitorais precisam adotar medidas técnicas e normativas para mitigar deepfakes, melhorar rastreamento de anúncios e acelerar processos de checagem e remoção de conteúdos abusivos; por outro, qualquer iniciativa mais interventiva pode ser interpretada como parcialidade se não houver transparência rigorosa. Mendes recorda, inclusive, a confiança pública nas urnas eletrônicas e ressalta o papel da Justiça Eleitoral em conter fraudes tradicionais, mas alerta que a preservação desse prestígio depende de postura 'altiva, imparcial e apartidária' — fórmulas que, na prática, exigem gestão técnica, diálogo com plataformas, órgãos de inteligência e fiscalização por partidos e Ministério Público.

Do ponto de vista político, a mensagem do ministro acende alerta para atores públicos e privados: partidos e campanhas terão de incorporar a nova geografia da desinformação em suas estratégias; o Judiciário e as agências de segurança terão de coordenar respostas sem sacrificar neutralidade; e a sociedade civil precisará de ferramentas de verificação mais robustas. Se essas frentes não avançarem de forma clara e consensual, o resultado será maior desgaste institucional e ambiente propício à contestação da vontade popular — justamente o cenário que a Justiça Eleitoral diz pretender evitar.