Brasília, DF – O decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, criticou a conduta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral durante o segundo turno ao não se manifestar sobre pedidos de prorrogação da votação. Sem citar o nome do colega, Gilmar afirmou que, na condução de órgãos importantes, "silêncios e hesitações não são neutros" e que se espera "a postura de árbitro equidistante que a Constituição pressupõe".

O episódio ocorreu após denúncias de falta de ônibus e problemas causados por chuvas em várias cidades. PT e PL pediram a extensão do horário de votação; diante da ausência de resposta do presidente do TSE, o PT recorreu ao STF. O ministro Cristiano Zanin autorizou a prorrogação apenas três minutos antes das 17h, quando muitas seções já haviam fechado. Ao todo, cerca de 35 mil votos foram contabilizados nas horas adicionais; a diferença de votos que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva foi superior a 4 milhões.

De quem está na condução do órgão que organiza o pleito espera-se a postura de árbitro equidistante que a Constituição pressupõe. Na condução de órgãos de elevada importância, um aspecto precisa ficar claro: silêncios e hesitações não são neutros

Gilmar ressaltou, porém, que "foi o colegiado do Tribunal Superior Eleitoral que assegurou que a disputa transcorresse dentro das regras do jogo democrático" e que "desta vez, a colegialidade cumpriu seu papel. A solidez do processo eleitoral, contudo, não pode depender apenas da força do colegiado".

Para analistas, os embates entre ministros têm corroído a imagem do Judiciário e ampliado a pressão do Congresso sobre a Corte. O cientista político André César afirmou que o desgaste foi profundo: “Isso abalou quase como um assassinato de reputações, como a gente fala. Mas quem perde mais ainda é a instituição Suprema Corte, que a opinião pública vê como uma coisa só”. Ele acrescentou: “É um bloco só, um monólito, em que todos estão envolvidos, é tudo igual” e avaliou que “vai levar muito tempo, se é que vai conseguir, para recuperar a antiga imagem do Supremo”. Até o fechamento desta edição, o presidente do TSE não havia se manifestado sobre as críticas.