Gilmar Mendes assumiu nas últimas semanas uma postura de liderança pública no Supremo que vai além da magistratura técnica: o decano defendeu a permanência do inquérito das fake news como ferramenta para conter uma ofensiva verbal que tende a se intensificar no ano eleitoral. Ao deslocar o foco das investigações sobre o caso Master para a Faria Lima e o sistema financeiro, Mendes busca reduzir a narrativa de que o STF estaria no centro do episódio, mas insiste que a apuração das agressões à Corte permanece necessária para preservar a ordem institucional.
A proposta do ministro por um pacto entre os Três Poderes — e por ajustes coletivos que passem por mudanças legislativas e disciplina administrativa — é leitura estratégica de dois problemas simultâneos: a escalada de ataques políticos ao Judiciário e a percepção pública de um Judiciário sobrecarregado. Mendes apontou que há demandas legítimas por regras claras sobre condutas e penduricalhos, e que esse tipo de reforma exige coordenação entre Executivo, Congresso e Judiciário, sob pena de deixar lacunas que alimentam descontentamentos e narrativas populistas.
Politicamente, a centralidade dada ao inquérito das fake news implica consequências claras. Em primeiro lugar, a manutenção da investigação funciona como freio simbólico a ataques que podem ser instrumentalizados por candidaturas em 2026; em segundo, reforça o protagonismo do STF na agenda pública — o que alimenta controvérsias sobre ativismo judicial. A crítica que Mendes dirigiu a parlamentares e gestores que atacam a Corte expõe uma tensão entre a exigência de contenção de abusos verbais e o risco de que a própria Corte seja acusada de interferir no debate político quando atua com visibilidade.
A reação a propostas de reforma do Judiciário, como a apresentada por Flávio Dino, tende a ganhar contorno prático se o pacto sugerido por Mendes sair do discurso e virar agenda legislativa. Regulamentar penduricalhos, ajustar regras de licença e aperfeiçoar o papel de órgãos como CNJ e CNMP são medidas com impacto fiscal e institucional — podem reduzir custos e desgaste, mas exigem negociações duras no Congresso. No curto prazo, a cartada do decano mostra uma Corte preocupada em criar defesas institucionais contra ataques e, ao mesmo tempo, tentar dar resposta às críticas de legitimidade por meio de propostas estruturantes.