O decano do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, afirmou nesta quinta-feira (23/4), em entrevista ao programa CB.Poder — parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília conduzida por Denise Rothenburg e Ana Maria Campos — que o eixo de decisão no país tem se deslocado de Brasília para o mercado financeiro, simbolizado pela Avenida Faria Lima. Para o ministro, esse movimento não é apenas retórico: aponta para um peso maior de agentes econômicos nas escolhas que moldam políticas públicas.
A avaliação de Mendes reacende um debate que já circula nos bastidores do Judiciário, do Congresso e do governo: até que ponto atores do mercado ditam prioridades que deveriam passar por processos democráticos e institucionais? Segundo o ministro, o tema tem contornos oscilantes — a percepção pública muda com o tempo —, mas há sinais de alteração no equilíbrio institucional. Isso tem implicações práticas em áreas como política econômica, regulação e definição de prioridades fiscais, onde interesses privados podem influir sobre decisões técnicas e políticas.
Do ponto de vista político e institucional, a constatação do decano acende alerta. Se parcela significativa da agenda se constrói fora do espaço formal de debate público, o custo em termos de accountability e de legitimidade aumenta: eleitores e representantes eleitos perdem ferramentas para cobrar resultados e definir prioridades. A cena também complica a narrativa oficial — especialmente para governos que dizem priorizar o interesse público — e amplia pressão sobre parlamento e Executivo para reforçar transparência e regras que limitem captura por interesses setoriais.
A declaração de Gilmar Mendes deve abrir espaço para um debate mais claro sobre limites, transparência e instrumentos de governança que preservem a centralidade das instituições democráticas. Tratada como retrato do momento, não como sentença definitiva, a observação do ministro funciona como sinal de alerta para poderes públicos, partidos e sociedade: manter a praça como referência de decisão exige regras e fiscalização efetivas, capaz de conter uma influência desproporcional do mercado sobre escolhas que afetam toda a coletividade.