Em sessão no Supremo Tribunal Federal, o decano Gilmar Mendes afirmou que, segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entre 32 e 34 deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro recebem 'mesadas' oriundas do jogo do bicho. A declaração, proferida no julgamento sobre a linha sucessória do governo estadual, elevou o tom do debate e projetou sobre a Alerj suspeitas que vão além do expediente político habitual.

Mendes usou os dados para justificar um olhar mais atento da Corte ao estado, descrevendo o cenário fluminense como um exemplo de degradação institucional. O ministro pediu atenção especial ao caso e apoiou o pedido de vista do ministro Flávio Dino, argumentando que a gravidade exige análise cuidadosa, e não tratamento burocrático. A fala ganha peso político porque ocorre em meio ao impasse sobre a sucessão no governo do Rio.

O estado está 'tão longe de Deus e tão perto das milícias'.

O contexto reforça o diagnóstico: desde 2016 o estado registra prisão de cinco ex-governadores, e em 2017 quase todo o Tribunal de Contas chegou a ser preso — fatos que Mendes citou para apontar padrão de captura institucional. Alexandre de Moraes complementou lembrando o vácuo de poder na Alerj, com presidência vaga por meses em razão de manobras políticas ligadas a parlamentares presos ou cassados.

Além do impacto simbólico, a acusação tem consequência prática: coloca pressão sobre partidos e lideranças locais, complica articulações para a sucessão e amplia o custo político de alianças com parlamentares sob suspeita. A menção ao jogo do bicho e à infecção por milícias transforma uma disputa interna em questão de segurança pública e integridade institucional.

Houve reação no plenário. O ministro Luiz Fux contestou o quadro de descrédito generalizado, lembrando que escândalos graves ocorreram também em esferas federais e que o Rio abriga políticos de qualidade. Ainda assim, a combinação de depoimentos da PF, a demora em decisões do TSE sobre cassações e o histórico de prisões produz um retrato que exige resposta coordenada das instituições.

No Estado de Direito não pode haver soberanos além do próprio Estado.

Para além do noticiário, o episódio deixa sinal claro: se comprovadas, as alegações obrigam mudança de estratégia política e medidas institucionais concretas para recuperar a governabilidade e a confiança pública no estado.