Em Brasília, o ministro Gilmar Mendes afirmou que há uma distância significativa entre transformar o impeachment de magistrados do Supremo em bandeira eleitoral e conseguir efetivamente levar esses pedidos adiante no Senado. A declaração, dada após evento com jornalistas, busca descolocar a retórica de campanha da realidade da aritmética e das regras institucionais da Casa.

Setores da direita já incorporaram a pauta na campanha — com nomes como Flávio Bolsonaro e Romeu Zema associando-se ao tema — na expectativa de ampliar bancada no Senado e influenciar a eleição para a presidência da Casa. Ainda assim, Gilmar apontou que eleger senadores favoráveis não é automaticamente suficiente para reunir as condições políticas necessárias: o impeachment de um ministro exige maioria qualificada, e a disputa por votos passa por alianças, negociações e resistência interna.

Não avalio. Não imagino e também não vou trabalhar sobre cenários neste momento

O ministro ressaltou que o movimento eleitoral pode ganhar espaço no discurso sem, contudo, traduzir-se em inciativa prática. Há barreiras procedimentais e um custo político para parlamentares que optarem por avançar contra integrantes do Judiciário, inclusive pelo impacto sobre a governabilidade e o equilíbrio entre Poderes. A mobilização pública, por si só, não elimina a necessidade de costurar apoio no plenário e de respeitar ritos estabelecidos.

Na mesma coletiva, Gilmar defendeu a atuação do ministro Alexandre de Moraes em investigações que envolvem fontes jornalísticas, afirmando que medidas contra profissionais da imprensa podem ser justificadas quando há indícios fortes de prática criminosa. Sobre projeções eleitorais e cenários externos, disse: "Não avalio. Não imagino e também não vou trabalhar sobre cenários neste momento"; acrescentou ainda que não espera uma interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral e que a democracia brasileira mantém instituições sólidas.

A avaliação do ministro lança um sinal político claro: transformar o impeachment em cartaz de campanha pode agravar a polarização sem garantir resultados institucionais. Para opositores que fazem da pauta um eixo eleitoral, o desafio será converter discurso em estratégia realista, com custos e ganhos bem calibrados — sob risco de ampliar desgaste político e de produzir pouco efeito prático na configuração do Senado.