O governo federal mostrou, nesta quinta-feira, fissuras públicas sobre a proposta que acaba com a escala 6x1. Em café com jornalistas, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, admitiu que o Executivo está disposto a negociar uma fase de transição para a entrada em vigor da nova jornada, embora o texto enviado ao Congresso não preveja esse passo gradual. A declaração surge dias após o projeto ter sido encaminhado ao Legislativo, em regime de urgência, pelo Planalto.
A posição de Guimarães contrasta com a defendida pelo ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que afirmou esperar a aplicação imediata da mudança assim que aprovada. Marinho também criticou a demora da Câmara em avançar com o tema — argumento usado pelo governo para justificar o pedido de urgência — e falou em limitar possibilidades de compensação que impliquem renúncia fiscal ampla. ‘O país não suporta isso’, disse, ao se posicionar contra desonerações da folha como forma de compensar redução de jornada sem perda salarial.
O desalinhamento entre ministros expõe riscos políticos e institucionais para o Planalto num ano eleitoral. A proposta é tratada como uma das apostas para recuperar popularidade, mas a divergência pública complica a narrativa oficial e aumenta a pressão sobre a coordenação política da Presidência. Ao deslocar o debate para o Congresso, o governo busca dividir responsabilidades, mas também entrega ao Legislativo a prerrogativa de moldar compensações e cronogramas, o que pode ampliar incertezas sobre custos e prazos.
Do ponto de vista fiscal, a rejeição antecipada à desoneração por parte de Marinho reforça o argumento de responsabilidade com as contas públicas, mas deixa em aberto a alternativa para garantir preservação salarial. No campo político, a oferta de discutir uma transição tenta atenuar resistência de categorias e parlamentares, mas a reação a público de diferentes ministros sugere que o desenho final da proposta dependerá mais da tramitação em Brasília do que de uma estratégia unificada do Palácio do Planalto.