O governo anunciou uma mudança de paradigma no combate ao crime organizado: a chamada “asfixia financeira”, que prioriza o bloqueio do patrimônio e dos recursos que sustentam o chamado “andar de cima”. Em coletiva sobre a 4ª fase da Operação Compliance Zero, o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, ressaltou que a diretriz privilegia inteligência integrada para atingir os magnatas do crime e evitar a contaminação do Sistema Financeiro Nacional. Nos próximos dias, segundo a equipe, será editado um decreto regulamentador no âmbito da Lei Antifacção para atacar quem negocia com facções e ampliar a repressão a armas ilegais.

A fase deflagrada agora marca um recorte técnico das investigações: enquanto as etapas iniciais focaram fraudes associadas ao Banco Master, a quarta fase mira a corrupção passiva e esquemas de lavagem ligados ao banco comprador, o BRB. A ação resultou no cumprimento de sete mandados de busca e apreensão e em duas prisões, entre elas a de Daniel Monteiro, apontado como mentor jurídico e financeiro do esquema e suspeito de ocultar patrimônio no exterior. O principal alvo permanece o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que já havia sido afastado na primeira fase das investigações. O levantamento da operação contabiliza, até agora, bloqueios de cerca de R$ 7,3 bilhões em ativos.

O governo procurou marcar distância de qualquer ingerência política, com o ministro da Justiça, Wellington César Lima, e o secretário afirmando que a Polícia Federal tem autonomia investigativa, dentro dos limites de sigilo impostos pelo Supremo. Ainda assim, a opção pela asfixia financeira tem consequência política clara: amplia a visibilidade das investigações e pressiona não apenas os investigados, mas também a regulação e o mercado financeiro, que terão de responder a uma ofensiva mais incisiva sobre ativos suspeitos. A eficácia dessa estratégia dependerá, em boa medida, da conversão dos bloqueios em recuperação de recursos e de sucessivas decisões judiciais que sustentem as medidas.

Do ponto de vista institucional, a operação representa um avanço técnico e operacional, mas abre espaço para debates sobre alcance e impacto das medidas. Se trouxer resultados concretos, pode reforçar a narrativa de combate à corrupção e gerar dividendos políticos; se esbarrar em dificuldades processuais ou em decisões judiciais contrárias, a abordagem pode ser enquadrada como retórica sem entrega. Em qualquer cenário, a 4ª fase da Compliance Zero desloca a disputa para o terreno patrimonial e financeiro, elevando a aposta do governo na repressão econômica como instrumento central de política de segurança.