O Palácio do Planalto divulgou nesta terça-feira resposta dura à conclusão preliminar do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) na investigação da chamada Seção 301. O governo interpreta o movimento como ação movida por interesses particulares e por agentes que exploram cargos públicos para objetivos eleitorais e familiares, e afirma que a medida prejudica o diálogo bilateral que vinha sendo conduzido — inclusive com envolvimento direto dos presidentes Lula e Trump.
No documento enviado às autoridades norte-americanas, Brasília rejeita a justificativa para imposições unilaterais e lista argumentos técnicos em defesa de suas políticas. O texto ressalta que o sistema de pagamentos instantâneos (Pix) é acessível e não discriminatório, e lembra dados do Bureau of Economic Analysis que mostram superavit comercial dos EUA com o Brasil de US$ 424,5 bilhões no período 2011–2025. Em 2025, o superavit de bens chegou a US$ 14,46 bilhões; o total de bens e serviços entre os países atingiu US$ 40,52 bilhões. O governo também destaca que a tarifa média efetiva aplicada a produtos americanos é próxima de 3,1% e que 76% das importações dos EUA ingressaram no mercado brasileiro sem pagamento de imposto de importação.
A nota enfatiza o custo econômico e social de tarifas motivadas por razões políticas: redução de empregos, perda de renda e enfraquecimento da participação norte-americana nas exportações brasileiras — que, no primeiro trimestre de 2026, recuou para 9,4%, o menor patamar da série histórica. As negociações iniciadas após o encontro entre Lula e Trump, em 7 de maio, miram encerrar a investigação sem sanções até 15 de julho. Ao mesmo tempo, o governo diz manter diálogo com o setor privado e reserva-se o direito de acionar a Lei de Reciprocidade aprovada pelo Congresso caso considere necessário.
A disputa expõe dois riscos concretos para Brasília: potencial deterioração da agenda comercial com os EUA e pressão política doméstica, já que a investigação foi provocada por atores ligados a ex-aliados do governo. O quadro acende alerta para a capacidade do Executivo de transformar diálogo diplomático em resultado efetivo antes do prazo estabelecido — e coloca sobre a mesa um dilema institucional: responder com mais negociação ou escalada legal, o que pode elevar custos econômicos e repercussões políticas no curto prazo.