Brasília, DF – Em menos de uma semana o governo federal lançou dois documentos que apontam direções opostas: o Mapa do Caminho com compromissos para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e o caderno de produção do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE), que projeta aumento na extração de petróleo e gás.

O PDE, elaborado pelo Ministério de Minas e Energia e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estima que a produção diária de petróleo chegará a 5 milhões de barris em 2028 e ficará em 4,9 milhões em 2035, contra uma média de 3,7 milhões em 2025. A extração de gás sobe de 179 milhões para 308 milhões de metros cúbicos por dia no período, crescimento de 72% na produção bruta.

A sustentação da trajetória de produção projetada para petróleo e gás natural dependerá da continuidade dos investimentos em E&P, da reposição das reservas produzidas, da realização de novas descobertas e da conversão de recursos potenciais em reservas efetivamente produzíveis

Para manter esse ritmo, o estudo prevê investimentos de cerca de R$ 2,4 trilhões entre 2027 e 2036 em exploração e produção, com grande parte destinada à instalação de 29 novas plataformas marítimas. O próprio documento ressalta: "A sustentação da trajetória de produção projetada para petróleo e gás natural dependerá da continuidade dos investimentos em E&P, da reposição das reservas produzidas, da realização de novas descobertas e da conversão de recursos potenciais em reservas efetivamente produzíveis".

Paralelamente, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou 18 diretrizes que vão orientar o Mapa do Caminho brasileiro; o texto final só será divulgado em 270 dias. Na COP30, o governo lançou propostas de prazos para que países elaborem seus mapas e reduzam a oferta de combustíveis fósseis até 2033. Como o documento afirma, "Transicionar para longe dos combustíveis fósseis é inevitável e já começou, mesmo que os países comecem de posições muito diferentes".

A simultaneidade das medidas evidencia tensão entre a retórica climática e a política de estímulo à exploração doméstica. O Executivo tem defendido maior perfuração, incluindo a concessão de licença para áreas da Margem Equatorial pouco antes da COP30, episódio que suscitou críticas de técnicos e da sociedade ambiental e afetou a percepção internacional sobre a agenda ambiental brasileira.

Transicionar para longe dos combustíveis fósseis é inevitável e já começou, mesmo que os países comecem de posições muito diferentes