A Polícia Federal identificou um núcleo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro que, segundo as investigações da chamada Operação Compliance Zero, teria usado recursos oriundos de fraudes no Banco Master para financiar uma campanha organizada de desinformação contra o Banco Central e outras autoridades. O esquema — batizado internamente como "Projeto DV", de acordo com a PF — oferecia contratos a influenciadores digitais e jornalistas com pagamentos que poderiam chegar a R$ 2 milhões por postagens e matérias que questionassem a liquidação da instituição financeira.
De acordo com os autos, a mobilização foi articulada por Thiago Miranda Silva, apontado pela PF como principal operador do projeto. Propostas com cláusulas de confidencialidade e coordenação estratégica eram apresentadas por meio de agências — entre elas a MiThi e empresas com vínculos a Vorcaro — e previam postagens sincronizadas para amplificar narrativas favoráveis aos investigados. Quando havia recusa em aderir à ação, o grupo teria recorrido à obtenção e ao uso de dados privados de forma ilícita para intimidar e forçar a adesão, revela a investigação.
O material que fundamentou o pedido de busca e apreensão inclui mensagens, contratos, comprovantes financeiros e depoimentos, que levaram o ministro relator no STF a autorizar a medida, com parecer favorável da PGR. A decisão permitiu acesso a documentos físicos e eletrônicos, apreensão de valores em espécie acima de R$ 20 mil e preservação imediata de dados em nuvem, para evitar destruição de provas. Entre os casos citados pela PF, estão tentativas de convencimento de jornalistas a retirar reportagens e esforços para obter material constrangedor sobre profissionais como a colunista Malu Gaspar.
Exemplos citados nos autos ilustram a estratégia: um vereador foi convidado a assinar acordo de confidencialidade com multa elevada antes de saber que teria de gravar vídeos alegando que o Banco Master foi "vítima" do Banco Central; e pedidos de "levantamento" contra executivos que incomodavam Vorcaro apareceram nas conversas. As transferências e contratos apontam para pagamentos provenientes de contas ligadas a Thiago Miranda e a empresas associadas a Vorcaro, segundo a PF.
O caso acende alerta sobre o uso de estruturas privadas para minar instituições públicas e manipular a opinião em benefício de interesses econômicos. Politicamente, a investigação amplia o desgaste em torno de Vorcaro e complica a narrativa de defesa do grupo, ao mesmo tempo em que levanta questões sobre a vulnerabilidade de profissionais da imprensa e a necessidade de reforço de mecanismos de transparência e responsabilização no mercado de influência digital. A operação coloca ainda pressão sobre quem facilitou a articulação — agências e intermediários — e promete repercussões práticas na esfera penal e reputacional conforme a apuração avance.