A diferença de 2,2 milhões de votos registrada no primeiro turno converteu redes sociais e portais em uma frente de batalha digital para as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Desde o dia 4 de outubro, surgiram ferramentas que combinam dados públicos com guias de ação para transformar alcance em voto — do rastreio de seções eleitorais à pressão sobre deputados e aliados.
No campo lulista, o foco é virar eleitores e reduzir a abstenção. Plataformas como Onde Dá Para Conversar — que usa bases do TSE para mapear seções com maior número de brancos, nulos e ausentes — apontam dezenas de milhares de locais onde, na análise da militância, uma mobilização local poderia alterar o resultado. Manuais e iniciativas como Dá Pra Virar recomendam ações específicas por cidade; em Brasília, por exemplo, a estratégia indica foco em eleitores que já manifestaram apoio a Flávio, enquanto em Fortaleza a prioridade é ampliar o total de votantes. Repositórios como o Acervo Lula e painéis de monitoramento, a exemplo do Radar da Virada, centralizam material de rua e destaques da mídia — entre eles temas usados para persuadir indecisos, como a discussão sobre o fim da escala 6 x 1.
Do outro lado, o aparato digital do bolsonarismo também se organiza. O Flaviômetro, tornado público pelo deputado e senador eleito Gustavo Gayer, ranqueia o engajamento de aliados eleitos nas redes sociais, com atualização em tempo real, objetivo de cobrar engajamento e destacar ausências. Em levantamento acessado pela reportagem, nomes com frequência sem publicações de apoio apareciam no topo da lista de 'ausentes', enquanto os mais ativos são celebrados como referência para a militância local.
O uso intensivo dessas ferramentas tem efeitos políticos concretos: além de segmentar e orientar a mobilização porta a porta, as plataformas funcionam como mecanismo informal de cobrança e recompensa dentro das coalizões, elevando o custo político de aliados desengajados. Ao transformar dados públicos em instrumental de campanha, as campanhas adotam tática mais tecnocrática — eficiente para microtargeting, mas suscetível a gerar atritos internos e a reduzir margem de manobra dos parlamentares. No curto prazo, a digitalização do trabalho de base tende a intensificar a disputa pelo voto decisivo; em paralelo, cria um novo terreno de exposição e responsabilidade para os próprios apoiadores.