Agentes da Polícia Civil cumpriram, nesta segunda-feira, mandados de busca relacionados a uma investigação sobre suspeitas de fraude no contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB). Foram vistoriados oito endereços; entre os materiais apreendidos estão cinco celulares, nove notebooks, 14 pendrives, documentos diversos e um HD que continha contratos da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia — pasta responsável pelo programa WiFi Livre SP. A operação, batizada de WI-FI, incluiu buscas na sede do ICB e em endereço ligado à produtora Go UP Entertainment, responsável pelo filme 'Dark Horse', mas, conforme as autoridades, não houve apreensões nesse último local.
O contrato inicial previa a implantação, operação e manutenção de 5.000 pontos públicos de Wi‑Fi por R$108 milhões. Ao longo da execução, foram assinados aditivos que elevaram o valor para R$157,1 milhões. Relatórios de controle apontam que, até dezembro de 2025, a Prefeitura havia pago R$83 milhões e reservado outros R$53 milhões no orçamento corrente. Os investigadores afirmam que apenas cerca de 3,2 mil pontos teriam sido instalados, mesmo após prorrogações, e que houve pagamentos antecipados de R$26 milhões sem comprovação integral da prestação dos serviços. O Tribunal de Contas do Município detectou 20 irregularidades no edital e recomendou a suspensão, medida não adotada pela gestão.
Além de questionamentos sobre a seleção do ICB — entidade com atuação pública voltada a eventos literários e religiosos e sem experiência prévia comprovada em telecomunicações — a polícia pediu acesso às análises do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações do ICB, da Go UP e de Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora. Uma das hipóteses investigadas é a de que parte dos recursos contratados tenha sido desviada para a produtora no período de produção do filme. A Prefeitura informou que repudia ilações e afirmou colaborar com as apurações; o prefeito Ricardo Nunes classificou a ação como perseguição política. A defesa de Karina não foi localizada e a reportagem manteve espaço para manifestação.
O caso reúne elementos que assustam pela combinação de valores elevados, apontamentos técnicos do TCM e operações de apreensão que podem revelar fluxo de recursos. Politicamente, a investigação tende a ampliar a pressão sobre a administração municipal e sobre a Secretaria de Inovação e Tecnologia, impondo necessidade de respostas rápidas e documentação robusta. Se confirmadas fraudes ou sobrepreço, o episódio pode desencadear responsabilizações administrativas e penais e comprometer a credibilidade de um programa com apelo social, ao mesmo tempo em que exige que o município revisite controles e práticas de contratação.