A candidatura de Hertz da Conceição Dias, 55 anos, reúne elementos de identidade política e simbólica: professor de história, mestrado em educação, ativista do movimento negro e veterano do rap nacional. Militante do PSTU desde 2010 e participante da fundação do Movimento Hip-Hop Quilombo Urbano em 1989, Hertz chega à corrida ao Planalto embalado por uma trajetória de base — e por uma trajetória eleitoral marcada por tentativas repetidas e desempenho modesto nas urnas. A oficialização da chapa pelo partido em julho de 2026, com Vanessa Portugal como vice, reforça a estratégia do PSTU de transformar a disputa numa ferramenta de organização, mais do que numa aposta real de vitória.

O programa apresentado é claro em sua radicalidade: defesa de um governo socialista, ampliação de serviços públicos, proteção dos trabalhadores, revogação das reformas trabalhista e da previdência, isenção de Imposto de Renda para assalariados, redução da jornada para 36 horas, fim da escala 6x1 sem perda salarial e medidas de controle estatal e expropriação de grandes fortunas. Na segurança pública, o partido defende a desmilitarização das polícias e a descriminalização de drogas; no campo dos direitos, propõe descriminalização do aborto, ampliação de cotas e titulação de territórios quilombolas. São propostas que acentuam o contraste com o centro e com o próprio PT.

Politicamente, a candidatura do PSTU cumpre duas funções: dá visibilidade a pautas de esquerda radical e funciona como instrumento de mobilização de sua base — menos como alternativa eleitoral viável e mais como catalisador de demandas e protestos. A posição explícita contra o governo Lula, motivada pela aproximação do PT com forças de centro e direita, indica tensão interna na esquerda; ao mesmo tempo, o impacto nas urnas tende a ser restrito, devido ao histórico de desempenho do partido e à limitada capilaridade eleitoral nacional. Ainda assim, a presença de Hertz no pleito complica a narrativa oficial da unidade da esquerda e força debate sobre temas sensíveis, como violência policial e desigualdade racial.

Do ponto de vista prático, as propostas econômicas e institucionais do PSTU — de forte caráter estatizante e punitivo para grandes fortunas — enfrentam barreiras políticas severas em um Congresso fragmentado e num ambiente econômico orientado por responsabilidade fiscal. A campanha registra, portanto, um potencial de pressão discursiva sobre o debate público e sobre o PT, sem, no curto prazo, alterar de forma decisiva a correlação de forças nacionais. O número 16 nas urnas representa, na visão do PSTU, um chamado à mobilização; para a política brasileira, é um lembrete de que parcelas da esquerda mantêm uma agenda divergente e intransigente sobre economia, segurança e direitos.