Um levantamento divulgado em março revela que a inteligência artificial se espalhou rapidamente pelo setor jurídico brasileiro, mas sem o mesmo ritmo de normatização institucional. A pesquisa Impacto da IA Generativa no Direito - Edição 2026, feita em parceria pela OAB (seções de SP, GO, BA, PE, PR e ES), Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) e Trybe, ouviu mais de 1.800 profissionais e aponta que o uso saltou de 55% em 2025 para 77% neste ano.
Os números mostram adoção em tarefas centrais da prática forense: 63% usam IA para elaboração de peças processuais, 59% para pesquisa jurídica, 58% para pareceres e memorandos, 56% para revisão de contratos e 43% para análise de provas e autos. Entre as ferramentas citadas estão ChatGPT (58%), Gemini (34%) e Jus IA (22%). A percepção sobre benefícios também cresceu: 91% notaram melhora técnica no produto final e 87% relatam economia média de 5 a 10 horas semanais.
A pesquisa mostra expansão acelerada do uso de IA no direito, sem a correspondente estrutura regulatória.
Apesar do ganho em produtividade e bem-estar profissional — 80% disseram sentir melhora — a pesquisa expõe riscos práticos e éticos. Quase metade (41%) admite usar ferramentas em contas pessoais, sem ciência das instituições; 57% sentem insegurança em declarar o uso por medo de implicações disciplinares. O cenário combina rápida difusão com capacitação desigual: entre usuários frequentes, 60% buscaram treinamentos; entre não usuários, 78% nunca treinaram.
Especialistas consultados pelo estudo e a própria OAB defendem que o crescimento não pode continuar sem regras claras. A ausência de padrões compromete transparência processual, atribuição de responsabilidade por erros e segurança de dados sensíveis. Do ponto de vista institucional, a falta de regulação cria brechas para decisões judiciais sustentadas por insumos automatizados sem controle externo ou requisitos mínimos de auditoria e explicabilidade.
Politicamente, o quadro exige uma resposta coordenada: regulação técnica e disciplinar, programas de capacitação pública e protocolos para uso em processos judiciais. Sem isso, a adoção tende a aprofundar desigualdades entre escritórios e tribunais, gerar contestações processuais e ampliar custos reputacionais para magistrados e advogados. O desafio é conciliar eficiência e inovação com salvaguardas que preservem o zelo profissional e a confiança no sistema de justiça.
Especialistas alertam para a necessidade de regras, transparência e capacitação para evitar riscos éticos e processuais.