O presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (Iria), Marcelo Senise, volta a alertar para um perigo pouco debatido: a capacidade da IA — por meio de perfis automatizados conhecidos como neurobots — de moldar não apenas conteúdos, mas a própria percepção coletiva sobre fatos políticos. Relatório do Iria, sintetizado na entrevista, destaca que a combinação entre algoritmos que personalizam informações e agentes artificiais capazes de simular apoio social amplia bolhas e reduz o encontro com versões divergentes da realidade. A pesquisa acende alerta sobre um risco que ultrapassa a circulação de notícias falsas: a fabricação em escala de uma realidade percebida.

O conceito central trazido por Senise é o de integridade cognitiva — a condição mínima para que cada cidadão forme opinião de modo autônomo e informado. Se a urna protege o ato de votar, a integridade cognitiva protege o processo pelo qual o voto é construído. A diferença entre persuasão legítima e manipulação indevida passa pela transparência: quando se oculta autoria, simula-se consenso e se adapta a mensagem para explorar vieses cognitivos, a democracia perde um elemento essencial de legitimidade. Nesse quadro, a IA deixa de ser ferramenta e torna-se vetor de distorção do debate público.

As conclusões do Iria apontam para a necessidade de governança específica: regras que aumentem transparência de contas e mensagens automatizadas, auditoria de algoritmos que amplificam conteúdo político, identificação clara de perfis gerados por IA e mecanismos de responsabilização para plataformas e agentes que promovem manipulação deliberada. Essas medidas não são panaceia técnica, mas instrumentos institucionais para reduzir a assimetria entre o que parece espontâneo e o que foi fabricado em laboratórios de influência. A adoção de normas nacionais, combinada a padrões internacionais, surge como caminho para mitigar riscos sem tolher o uso legítimo da tecnologia.

Do ponto de vista político, o alerta do Iria tem impacto claro: para 2026, a presença de neurobots no debate público cria novo vetor de desgaste para governos e atores políticos que não se anteciparem. A pressão recai sobre a Justiça Eleitoral, o Congresso e as plataformas, que terão de conciliar liberdade de expressão com salvaguardas da integridade do processo decisório. Ignorar o problema é aceitar que preferências eleitorais sejam moldadas por sinais artificiais — um custo de legitimidade que o sistema democrático pode pagar caro. Resta à esfera pública decidir se regula, fiscaliza e responsabiliza, ou se deixa que a tecnologia redesenhe, sem freios, o espaço onde a opinião se forma.