Dois meses após a publicação da resolução 23.755, que proibiu recomendações de voto por ferramentas de IA generativa, um relatório do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (Boca de IA) revela que a prática não só persiste como se intensificou. A pesquisa, aplicada em maio e focada na campanha presidencial e em disputas estaduais na Bahia, Goiás, São Paulo, Rio Grande do Sul e Pará, avaliou respostas de sete sistemas amplamente usados por internautas: ChatGPT, Gemini, Meta IA, DeepSeek, Grok, Perplexity e Claude.
O levantamento mostra que a média de respostas com algum grau de ranqueamento ou priorização de candidatos subiu de 66% para cerca de 78% em comparação com rodada anterior — feita antes da norma do TSE entrar em vigor. Em casos individuais, a variação foi expressiva: a Meta IA passou de 0% para 100% de ocorrências com priorização; o Claude subiu de 17% para 55%; e o ChatGPT, já alto, foi de 82% para 91%. DeepSeek e Grok foram exceções, registrando retração em relação à rodada anterior, mas não eliminaram por completo o problema.
Além do ranqueamento, o estudo identifica mudança nas fontes citadas pelas IAs: referências oficiais, como dados do TSE e informações partidárias, apareceram com mais frequência (de 12% para 30%), e reportagens e pesquisas eleitorais também foram mais usadas (de 55% para 75%). Ao mesmo tempo, os sistemas recorreram a referências de qualidade questionável — enciclopédias colaborativas, portais locais e até sites de apostas — e cometeram erros de atualização factual, as chamadas “alucinações”. O relatório registra, por exemplo, o caso em que o DeepSeek indicou equivocadamente filiação partidária de pré-candidato.
O quadro exposto pelo ITS Rio acende alerta sobre a eficácia da norma do TSE e sobre a capacidade de frear influências sutis que podem chegar ao eleitor indeciso. A priorização algorítmica tende a moldar percepções mesmo quando não há uma recomendação explícita, tornando a transparência dos critérios e a auditoria das plataformas prioridades políticas e regulatórias. Para além do debate técnico, há consequência eleitoral: se algoritmos amplificam nomes ou narrativas, cresce o custo político de uma fiscalização ineficaz e aumenta a pressão sobre empresas e autoridades por medidas claras de responsabilização e monitoramento.