A crise política no Distrito Federal ganhou contornos visíveis nos últimos dois dias, com troca de farpas públicas entre o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e a governadora Celina Leão (PP). O episodio mais agudo começou com um ultimato em favor do protagonismo do MDB na chapa majoritária e no Senado, culminando na resposta enfática de Celina, que afirmou não aceitar submissão e reclamou da "herança" deixada nos cofres do GDF e do rombo no BRB, citado em R$ 21,9 bilhões. Menos de 24 horas após a escalada, Ibaneis preferiu apagar parte da fagulha retórica: negou ruptura definitiva, disse apostar no diálogo e ressaltou a tradição do partido em oferecer estabilidade política.
A mudança de tom não significa ausência de custo político. O vídeo em que Ibaneis aparece ao lado de Baleia Rossi, do presidente regional Wellington Luiz e do deputado Leonardo Prudente, reivindicando espaço para o MDB, deixou clara a insatisfação com a sucessora. A reação pública de Celina expôs fissuras internas que vão além da disputa por cargos: colocam na mesa a questão do comando político da agenda distrital e a percepção de que decisões administrativas não estariam alinhadas ao projeto emedebista. Esse desencaixe aumenta a dificuldade de costurar apoio consistente na Câmara Legislativa, onde a governabilidade depende mais de acordos finos que de unanimidade.
Do ponto de vista eleitoral, o episódio acende alerta para a montagem das chapas e para a narrativa que cada sigla pretende impor até 2026. Para o MDB, as manifestações públicas e a exigência de protagonismo sinalizam tentativa de recomposição de relevância; para o PP, a resposta firme de Celina funciona como demonstração de autonomia e tentativa de capitalizar agenda própria. O impasse — mesmo com o recuo retórico de Ibaneis — amplia desgaste e impõe custos de coordenação: aliados esperam sinalizações claras sobre distribuição de poder e prioridades de governo. A ausência de acordo define um calendário de incertezas que pode atrapalhar desde projetos legislativos até acordos de campanha.
O caminho adotado nas próximas semanas será decisivo. A opção por calibrar o discurso evita um rompimento público imediato, mas não resolve a pressão por resultados concretos: definição de candidaturas, distribuição de secretarias e tratamento das contas com déficit apontado em cerca de R$ 4 bilhões, além das consequências do rombo no BRB, são fatores que alimentam a disputa interna. Se a solução for apenas retórica conciliatória, as tensões tendem a reaparecer quando vierem as escolhas práticas. A alternativa é um acordo institucionalizado, com regras claras sobre protagonismo e agenda comum — condição para que a aliança deixe de ser fonte de ruído e volte a funcionar como instrumento de governabilidade e projeto eleitoral.