A advertência do economista Daron Acemoglu de que a eleição de 2026 é um ponto decisivo para o Brasil reapresenta, em termos contemporâneos, um velho dilema: até que ponto nossas escolhas políticas irão aprofundar ou romper com uma tradição histórica de poder centralizado? Em entrevista à BBC News Brasil, Acemoglu compara o risco de um retrocesso político no Brasil a episódios recentes em outras democracias; o recado é claro: a disputa eleitoral não é apenas entre candidatos, mas sobre a capacidade do país de preservar instituições e ampliar condições sociais que tornem a liberdade efetiva para a maioria.

O artigo recupera uma chave interpretativa antiga, o chamado iberismo, para explicar como heranças coloniais — monopólios, escravidão, concentração territorial e decisões top-down — moldaram estruturas políticas e econômicas que persistem. Essa centralização foi reproduzida ao longo da modernização: a emergência de direitos e de políticas públicas ocorreu muitas vezes por mediação do Estado, sem uma correspondente distribuição de poder, renda e conhecimento. Como lembram pesquisadores que tratam do tema, inclusive em obras recentes sobre a construção do Estado brasileiro, o populismo surge nesse espaço: não apenas como demagogia, mas como produto de uma modernização tutelada que ampliou proteção sem garantir autonomia social.

A Constituição de 1988 tentou inverter essa lógica ao combinar direitos sociais e liberdades individuais, mas o desafio prático permanece: transformar textos constitucionais em serviços públicos de qualidade, em oportunidades de mobilidade e em segurança para o cidadão comum. Aqui está o nó político. Quando direitos reconhecidos não se traduzem em resultados, abre-se espaço para desgaste do governo e para aproveitamento político por opositores que prometem rupturas. Esse impasse complica a narrativa oficial e acende alerta sobre os custos eleitorais de avanços insuficientes — sobretudo em um cenário internacional em que a qualidade da democracia passou a ser outro fator de avaliação geopolítica.

A consequência política é direta: para o governo, a prioridade não pode ser apenas retórica sobre direitos, mas entrega mensurável de serviços e reformas que reduzam a captura por grupos organizados; para a oposição, a tentação de explorar a frustração social pode ampliar riscos institucionais. Em 2026, portanto, está em jogo uma escolha estratégica sobre consolidar um projeto que combine responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e expansão de oportunidades, ou abrir espaço a opções que prometam solução imediata e concentrem poder. Essa encruzilhada exige respostas concretas — políticas públicas com resultados — sob pena de transformar a promessa da redemocratização em narrativa de frustração.