Ao orientar os fiéis a escolherem em defesa da democracia e dos mais pobres, o alto clero católico entrou de forma prática na disputa eleitoral. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reafirmou que não indica candidatos, mas sua mensagem — repetida por cardeais e bispos em diferentes regiões — disputa critérios de voto e o que conta como autoridade moral nas urnas.
A ofensiva episcopal não menciona nomes, mas confronta práticas associadas ao bolsonarismo que vêm buscando apoio em lideranças religiosas. Nas palavras dos prelados ouvidas em pronunciamentos regionais, há uma crítica clara à instrumentalização da fé para fins eleitorais e um apelo à formação da consciência que rechaça tratativas que transformem templos em currais eleitorais.
O movimento tem base social: o Censo de 2022 mostra que o catolicismo segue majoritário (56,7% entre pessoas com 10 anos ou mais), mas perdeu espaço para o crescimento evangélico (26,9%). Estudos sobre capilaridade religiosa, como o levantamento do Ipea, também apontam maior presença de denominações pentecostais e neopentecostais em número de estabelecimentos — um elemento que explica por que a disputa pelas periferias é central na campanha.
Pesquisas citadas no debate interno da Igreja, como a Quaest, ilustram o desgaste do quadro: Lula aparece mais forte entre católicos, enquanto Flávio Bolsonaro lidera entre evangélicos. Esses dados explicam o cálculo episcopal: sem virar partido, a orientação da CNBB busca influenciar critérios de escolha entre quem ainda se informa e se relaciona com a Igreja nas comunidades.
Há também dimensão histórica. A posição atual da hierarquia é fruto de uma trajetória em que a Igreja oscilou entre conciliação institucional e mobilização em defesa de direitos humanos. Hoje, os bispos apostam num protagonismo moral que coloca temas como soberania e proteção da Amazônia na agenda religiosa — bandeiras que, incidentalmente, ecoam em parte da plataforma governista oposta.
Politicamente, a iniciativa acende alerta para o bolsonarismo: ao disputar o significado do voto nas periferias, a Igreja amplia a pressão sobre aliados evangélicos e levanta dúvidas sobre a eficácia de transformar liderança religiosa em cabo eleitoral. Se mantida até as urnas, a orientação episcopal tende a complicar a narrativa de quem busca converter fé em capital político e a impor custo político a estratégias eleitorais baseadas apenas em mobilização religiosa.