Em discurso de abertura do 6º Congresso Brasileiro de Internet, a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia lançou um alerta que combina tecnicidade e preocupação cívica: a inteligência artificial, aliada ao abuso tecnológico, representa uma ameaça direta à autonomia do eleitor e à própria sobrevivência de práticas democráticas baseadas em escolha livre e informada. Participando de forma remota, a ministra descreveu o fenômeno com um quadro explicativo — a chamada "guerra dos cinco Vs" — e sublinhou que o volume, a variedade, a velocidade, a viralidade e a verossimilhança das informações alteram substancialmente a dinâmica da checagem e do debate público.
A crítica de Cármen Lúcia não se restringe a um diagnóstico técnico. Ao apontar que ferramentas digitais podem produzir conteúdos altamente críveis, capazes de simular vozes e imagens, a ministra ressaltou o impacto prático sobre a capacidade crítica do eleitor. Esse enfraquecimento do distanciamento analítico facilita a contaminação do ambiente informativo e tende a reduzir a liberdade de escolha — não por meio de censura formal, mas pela saturação e pela manipulação do repertório de informações disponíveis no momento da decisão política.
Outro aspecto destacado foi a violência direcionada a candidatas mulheres: definida pela ministra como estratégia de deslegitimação que utiliza ataques à honra e à vida privada para afastar mulheres da política. É uma consequência política concreta e mensurável, que afeta pluralidade e representatividade. Cármen Lúcia lembrou ainda dados e ações anteriores: a confiança no sistema eleitoral, que já chegou a ser aferida em índices elevados, passou a ser alvo de campanhas de descredibilização, e o esforço institucional para conter a erosão de confiança ganhou novos contornos com a emergência da IA.
No plano institucional, a ministra citou o trabalho do Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação (Cied) do TSE como uma resposta necessária, mas insuficiente diante do que classificou como um desafio inédito — diferente do foco, em 2022, nas redes sociais e em debates sobre as urnas eletrônicas. A mensagem política é clara: o avanço tecnológico complica a narrativa oficial e impõe pressão sobre o Judiciário, o próprio TSE e o Legislativo para atualizar instrumentos de monitoramento, regulação e cooperação internacional. Resta aberto o debate sobre como equilibrar medidas eficazes de proteção do processo eleitoral sem sacrificar liberdades civis essenciais.