A Polícia Federal identificou que 29 emendas parlamentares investigadas por suposta indicação irregular foram formalmente registradas no sistema da Câmara como propostas da liderança do Republicanos. Os recursos, destinados a fundos municipais de saúde em Minas Gerais ao longo de 2025, somam mais de R$ 6,1 milhões e tiveram a execução suspensa por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino, que também determinou o bloqueio dos mesmos valores em bens atribuídos a Eduardo Cunha.

Segundo a apuração, Cunha — que não ocupava mandato — teria atuado como o efetivo responsável pela destinação das verbas, o que contraria a previsão legal de que emendas sejam apresentadas por deputados, senadores, bancadas estaduais ou comissões. Os documentos analisados mostram que todas as emendas em questão foram assinadas pela liderança do Republicanos à época comandada por Gilberto Abramo (Republicanos-MG). Investigadores apontam, ainda, a participação da servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, no trâmite das propostas; relatórios citam indícios de operação com o aval da presidência da Casa.

O episódio reacende a discussão sobre rastreabilidade e controle das emendas de comissão — mecanismo cujo volume saltou de R$ 329,4 milhões em 2022 para R$ 12,1 bilhões em 2026 — e sobre se as novas regras pactuadas entre Congresso e STF têm efetividade. Em resposta a pressões da Corte foram exigidos registros mais claros sobre a origem das indicações e atas de comissões, mas a PF sustenta que a formalização pela liderança partidária foi usada justamente como instrumento para ocultar o autor real das indicações.

Politicamente, o caso complica a narrativa do Republicanos e acende foco sobre a responsabilidade de figuras que ocuparam a liderança da bancada. A decisão do STF e o bloqueio de bens elevam o custo jurídico e reputacional para Eduardo Cunha — que nega irregularidades e promete contestar a medida — e colocam pressão sobre mecanismos de transparência do Congresso. Mais do que litígio individual, trata‑se de teste para a capacidade institucional de fechar brechas criadas após o fim do chamado orçamento secreto.