Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado nesta quarta associa jornadas mais longas a salários menores e ao aumento da desigualdade no mercado de trabalho. O estudo indica que empregados que cumprem 44 horas semanais, no formato 6×1, podem receber até 58% menos que profissionais com jornada de 40 horas. A diferença salarial aparece com maior intensidade nos setores de comércio e serviços, onde se concentra parcela expressiva de trabalhadores de menor escolaridade e renda.
Os dados trazem números que dão corpo ao debate: a pesquisa aponta rendimento médio de cerca de R$ 6,2 mil entre quem trabalha 40 horas e aproximadamente R$ 2,6 mil para os que têm jornada de 44 horas. Além disso, a Relação Anual de Informações Sociais mostra que cerca de três quartos dos vínculos formais seguem a regra das 44 horas, o que torna central a discussão sobre eventual redução do limite máximo sem perda salarial.
O Ipea estima que reduzir a jornada elevaria o custo da hora trabalhada em torno de 7,8%, mas com impacto agregado relativamente pequeno em setores como indústria e comércio — abaixo de 1% do custo total. O técnico do instituto responsável pelo estudo afirma que esse adicional pode ser compensado por ganhos de produtividade ou pela contratação de mais trabalhadores, uma mudança que, na avaliação técnica, poderia redistribuir empregos e contribuir para queda no desemprego.
Além do efeito econômico, o relatório ressalta consequências sociais: a escala 6×1 limita o descanso semanal e agrava a tensão entre vida profissional e pessoal, sobretudo entre os mais vulneráveis. Politicamente, o levantamento amplia o argumento de especialistas que defendem a redução da jornada como instrumento de política pública, colocando pressão sobre Executivo e Congresso para confrontar custos empresariais, impacto fiscal e ganhos sociais na formulação de uma proposta viável.