O Ministério das Relações Exteriores informou à Câmara dos Deputados que a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas abre espaço para ações unilaterais e extraterritoriais — e, segundo o próprio Itamaraty, não se pode descartar a possibilidade de uso da força militar em solo brasileiro. A avaliação consta de resposta oficial ao requerimento do deputado Evair de Melo (Republicanos-ES) a que o Correio teve acesso.

No documento, a pasta argumenta que a designação norte‑americana pode ser invocada para medidas administrativas, judiciais e financeiras contra pessoas e instituições brasileiras, com efeitos em áreas como finanças, migração e direito penal. O Itamaraty também aponta que a classificação, na prática, pouco acrescenta ao enfrentamento do crime organizado e pode gerar impactos relevantes sobre a economia e riscos concretos à soberania nacional. Segundo a nota, não houve comunicação formal prévia dos EUA ao Brasil.

A resposta oficial não convenceu parte do Parlamento. O autor do pedido de informações considerou a manifestação genérica e reclamou da ausência de pareceres técnicos, notas diplomáticas ou detalhamento das providências adotadas para mitigar efeitos jurídicos e financeiros. Do lado do Executivo, o Planalto reagiu à classificação lembrando que a soberania é inegociável; o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou desconforto com o tratamento externo do tema.

Politicamente, o episódio acende um alerta para Brasília: a decisão americana amplia pressões sobre o governo e complica a narrativa oficial de defesa da soberania sem exposição de medidas concretas. Parlamentares já pedem aprofundamento da fiscalização, e a indefinição técnica pode forçar o Itamaraty a apresentar respostas mais detalhadas, sob pena de ampliar o desgaste político e o custo econômico de uma controvérsia que envolve segurança, diplomacia e mercado.