O Itamaraty orientou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a adotar uma postura pragmática diante da fuga do senador Flávio Bolsonaro para Miami, episódio que ganhou contornos internacionais após reportagem do New York Times apontar assistência logística de um assessor da Casa Branca. Flávio desembarcou nos EUA apesar de decisão do STF que lhe havia proibido de deixar o país.
A apuração traz detalhes do trajeto: saída da Argentina, escala no Equador e chegada à Flórida em jato particular providenciado, segundo o jornal americano, por integrantes do entorno do governo dos EUA. O dono da empresa Baires Fly afirmou que o pagamento de US$ 150 mil foi feito via intermediário com conta nos Estados Unidos. Autoridades americanas admitiram que concederam a entrada sob o regime de parole.
O caso acende alerta para Brasília. Para o Itamaraty, uma reação dura poderia prejudicar relações bilaterais com Washington e Buenos Aires; ao mesmo tempo, o episódio complica a narrativa oficial sobre respeito a decisões do Judiciário e fiscalização de fronteiras. Há risco de percepção de impunidade quando uma ordem do STF — que pedia entrega de passaportes — não se traduz em impedimento efetivo.
Politicamente, o episódio pressiona o Palácio do Planalto: por um lado, a necessidade de preservar diálogo com parceiros externos; por outro, o custo doméstico de parecer permissivo diante de infrações processuais. O senador perde o foro privilegiado em 31 de janeiro de 2027, e o caso tende a ser explorado por opositores e pelo Judiciário enquanto sinal de desgaste institucional.
Nos próximos dias, a Casa Branca e o Departamento de Estado deverão responder a questionamentos formais, e espera-se que Flávio avalie pedidos de residência nos EUA. A orientação do Itamaraty coloca Lula numa rota de equilíbrio: agir com pragmatismo para não isolar o país diplomaticamente, ao mesmo tempo em que precisa responder às consequências institucionais e políticas do episódio.