A primeira-dama Janja Lula da Silva passou a ocupar papel mais ativo na organização da campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de não integrar formalmente a estrutura eleitoral, ela participa de reuniões na sede do PT em Brasília e mantém interlocução direta com o presidente da legenda, Edinho Silva, além de contato com o marqueteiro Raul Rabelo. Segundo relato do dirigente petista, a presença dela será permanente ao longo da disputa e inclui uma agenda própria em estados.
A nova configuração envolve mais do que participação simbólica: Janja deve conduzir atividades com foco na mobilização das mulheres e terá autonomia para atuar em eventos, incluindo a definição de convidados e a preparação de homenagens. Essa atuação pratica um protagonismo visível na organização das ações eleitorais, com itinerários paralelos aos do presidente, o que altera a dinâmica operacional do comitê e aumenta o número de atores com poder de influência nas decisões.
Especialistas ouvidos pelas reportagens destacam que a sobreposição entre poder informal e estruturas formais de campanha pode gerar custos. Márcio Coimbra, consultor com experiência em gestão pública e campanhas, aponta que a indefinição de funções tende a provocar atritos com profissionais responsáveis pela comunicação e com a cúpula partidária. A existência de agendas paralelas e de tomada de decisões por vias não formalizadas amplia o risco de ruídos e de decisões contraditórias em momentos sensíveis.
Há, ainda, um cálculo político envolvido. O envolvimento de Janja reforça a conexão com a base petista — sobretudo por sua trajetória histórica no partido e pela ênfase em pautas femininas —, mas especialistas advertiram que esse protagonismo pode dificultar a aproximação com eleitores moderados e indecisos. O papel tradicional de cônjuges em campanhas costuma ser o de ampliar a aceitação do candidato fora da bolha partidária; ao se concentrar no núcleo e em ações internas, a primeira-dama corre o risco de limitar esse efeito agregador.
Na prática, a campanha enfrenta um trade-off: aproveitar a capacidade de articulação interna de Janja sem abrir espaço a vulnerabilidades estratégicas e a críticas sobre mistura de esferas pública e privada. Para reduzir custos políticos e operacionais, será necessário explicitar atribuições, alinhar canais de comunicação e coordenar agendas com a equipe formal. Sem essa clareza, o protagonismo ampliado tende a gerar tensão interna e a fornecer terrenos de ataque para adversários em uma disputa em que a gestão da imagem e da governança da campanha será determinante.