A declaração pública de Joice Hasselmann nesta quinta (22/10) — em que anuncia voto em Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno — reforça um quadro político marcado por deserções pontuais do bolsonarismo. Figura que chegou a liderar a bancada governista no Congresso em 2018, Joice justificou a decisão como uma prioridade pela preservação das regras democráticas: segundo ela, a defesa do regime se sobrepõe a afinidades partidárias anteriores.
No vídeo, a ex-deputada traçou um percurso de adesão inicial ao governo Bolsonaro seguido de desilusão profunda. Joice afirma ter testemunhado, de dentro, práticas que qualificou como corrupção ampliada pela influência familiar e diz ter alertado autoridades do Judiciário sobre documentos que, em sua avaliação, mostravam intenção de ruptura institucional já no começo da gestão. A narrativa inclui relatos de retaliações pessoais e políticas após suas denúncias — perda de base, perseguições e tentativas de silenciamento — elementos que, para ela, confirmaram a veracidade das advertências feitas à época.
A postura de Joice tem impacto político prático no segundo turno. Ao mudar de lado, ainda que por razões de defesa democrática, ela dá munição retórica à campanha de Lula para ampliar a imagem do adversário como um projeto ligado a práticas familiares e antidemocráticas. Para o campo conservador, a deserção de alguém que foi voz do bolsonarismo em 2018 sinaliza fissuras e alimenta debate sobre coesão e estratégia: é uma janela para o discurso de risco autoritário e, ao mesmo tempo, um convite à oposição democrática que a própria Joice disse pretender retomar após o pleito.
Do ponto de vista eleitoral, a adesão não garante transferência automática de votos, mas representa um ativo simbólico para ampliar o palanque do presidente no segundo turno. Politicamente, também amplia o desgaste sobre figuras do clã Bolsonaro — especialmente quando Joice associa nomes do grupo a escândalos financeiros e sugere que a impunidade pode não prevalecer. A decisão promete atrair críticas e portas fechadas para a ex-deputada, como ela mesma reconheceu; mas, na agenda pública, marca mais um episódio em que antigos aliados se colocam contra uma candidatura que, pelos seus termos, ameaça as regras do jogo democrático.