O debate sobre a adoção da escala 6x1 voltou ao centro das atenções em painel realizado em Brasília, onde o professor de direito do trabalho César Alexandre Marinho dos Santos traçou o percurso histórico que levou ao modelo atual. Segundo o especialista, longas jornadas surgiram com a industrialização e só foram progressivamente limitadas por marcos legais — da CLT de 1943 à revisão constitucional de 1988 — em resposta à pressão social por redução de horas e proteção do trabalhador.

Além do argumento histórico, o professor ressaltou que a redução da jornada gera efeitos práticos relevantes: desconexão do trabalho, mais tempo livre e potencial aumento do consumo em setores como turismo e comércio. Do ponto de vista político, tais ganhos representam um trunfo em termos de agenda social, mas também abrem margem para disputas sobre custo e compensação, tema sensível em ano de acentuada atenção fiscal.

No contraponto econômico, Marinho dos Santos advertiu para o impacto sobre micro e pequenas empresas, que podem enfrentar necessidade de novas contratações ou reorganização de turnos para manter oferta de serviços. O especialista lembrou que o país convive com pouco mais de 6 milhões de desempregados e quase 3 milhões de desalentados, cifra que permite interpretar a eventual redução como oportunidade de ampliação do mercado de trabalho — hipótese que depende, porém, de adaptação do setor produtivo e de políticas de apoio.

O painel também trouxe menção à reforma trabalhista de 2017 e à figura do trabalho intermitente como instrumento que poderia ser invocado para flexibilizar a transição, embora ainda imaturo na prática. Para além das intenções, a discussão política terá de enfrentar trade-offs claros: promover bem-estar e consumo sem transferir custos excessivos para empresas fragilizadas ou agravar a pressão sobre as contas públicas. A decisão exigirá, portanto, alternativas tecnicamente calibradas e diálogo entre governo, Congresso, empregadores e trabalhadores.