Aos 80 anos, José Dirceu deixou o Hospital Sírio-Libanês e informou que pretende retomar a atividade presencial na campanha do PT. Diagnosticado em maio com um linfoma no duodeno — tumor de cerca de 10 centímetros —, ele passou por meses de quimioterapia e, segundo exames no início de setembro, atingiu remissão. A condição levou o ex-ministro a reduzir aparições públicas e apostar numa campanha principalmente digital até a recuperação do sistema imunológico; com a alta, Dirceu anunciou a intenção de intensificar apoio a Luiz Inácio Lula da Silva e a Fernando Haddad em São Paulo.

A volta de Dirceu tem, desde já, caráter político. Foi por convite do presidente que ele decidiu concorrer novamente à Câmara, e Lula gravou vídeo pedindo votos e qualificando a candidatura como uma reparação histórica — sinal de que o presidente faz da identificação com Dirceu uma peça de sua estratégia. Internamente, o PT vê na candidatura do ex-ministro potencial para agregar votos em São Paulo e fortalecer a bancada federal do partido, além de somar peso simbólico à campanha estadual de Haddad.

A escolha também carrega riscos e contradições que merecem atenção. Dirceu é uma figura polarizadora: sua trajetória política inclui papel central na ascensão do PT e condenações que foram anuladas recentemente pelo STF, decisão do ministro Gilmar Mendes que reabriu caminho para a disputa eleitoral. Isso dá legitimidade jurídica ao retorno, mas mantém viva a narrativa adversária sobre impunidade e passado judicial, que a oposição pode explorar. Além disso, a necessidade de cuidados médicos, a recente queda de imunidade e o histórico prévio de tratamento em 2020 impõem limites práticos ao tipo de exposição que ele poderá ter nos palanques.

O cálculo do PT é claro: combinar simbolismo e potencial eleitoral para reforçar sua frente em São Paulo. Politicamente, a operação funciona como uma aposta — capaz de energizar setores da militância e atrair mídia — e, ao mesmo tempo, acende alertas, porque amplia espaço para questionamentos sobre prioridades e custo político. Para o campo governista, o desafio será transformar a simbologia em votos sem permitir que a discussão pública se transforme num fator de desgaste que complique a narrativa oficial nos meses finais da campanha.