Aos 80 anos e recuperado de um linfoma, José Dirceu oficializou o retorno à disputa eleitoral com uma candidatura à Câmara dos Deputados por São Paulo. A iniciativa, segundo ele, nasceu de conversas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do PT, com objetivo de combinar experiência legislativa e renovação partidária. Dirceu passou a integrar uma lista de ex-parlamentares convocados para reforçar a bancada petista, enquanto acompanha a reta final da campanha de forma mais limitada fisicamente, após tratamento que terminou em setembro.

Na retomada pública, Dirceu valorizou o discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU, sobretudo as posições sobre soberania e autonomia na exploração de minerais estratégicos, e reafirmou a aposta numa coalizão ampla que inclui partidos da centro-esquerda e apoios regionais. Ao mesmo tempo, avaliou as pesquisas mais recentes como uma fotografia preocupante: o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, diz ele, traduz não apenas oscilações eleitorais, mas um contexto histórico em que a direita tem presença consolidada na política brasileira.

Para Dirceu, o avanço do conservadorismo tem raízes que vão além de ciclos eleitorais. Ele cita episódios como o julgamento da Ação Penal 470 e a operação Lava-Jato como fatores que reduziram o espaço público da esquerda e abriram caminho para o crescimento da direita; aponta também mudanças sociais, culturais e a organização de setores religiosos como vetores desse fortalecimento. O ex-ministro mencionou ainda a crise no Supremo Tribunal Federal como elemento de instabilidade institucional que influencia o jogo político e a percepção do eleitorado.

O diagnóstico de Dirceu tem implicações práticas para o PT: revalorização do esforço de renovação, reforço da militância nas regiões-chave e articulação mais intensa com aliados para segurar o Sudeste, onde o equilíbrio persiste. A leitura do quadro também representa um alerta para a campanha de Lula: o empate técnico amplia a necessidade de estratégia mais agressiva nas bases, mensagens claras sobre economia e segurança institucional, e respostas à narrativa da oposição. Se confirmado nas urnas, o cenário descrito por Dirceu aponta para uma disputa mais acirrada que exigirá coordenação e capacidade de reação da coalizão governista.